[Análise] O que “Querô” tem a nos dizer sobre determinismo social?

Querô (Maxwell Nascimento) é filho de uma prostituta, que foi expulsa do bordel em que trabalhava no dia em que deu à luz. Desesperada, ela se suicida tomando querosene. Violeta, a dona do prostíbulo, decide cuidar do garoto e o apelida de Querô, em referência ao modo como sua mãe morreu. Ao crescer Querô, revoltado com os maus tratos que recebe, passa a cometer pequenos delitos. Um dia ele é pego e encaminhado à Febem, onde sua vida é marcada para sempre.

O filme é único trabalho dirigido e roteirizado pelo cineasta brasileiro Carlos Cortez e foi baseado na obra literária Querô: Uma Reportagem Maldita, escrita pelo dramaturgo santista Plínio Marcos nos anos 70.

“Raiva é um negócio que ninguém tira da gente”, diz Querô no inicio da projeção

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Após conhecermos as circunstâncias nas quais nasceu o menino Querô e assistirmos aos créditos iniciais, a primeira imagem que vemos, consiste no protagonista retratado em Contra Plongée (câmera filmando de baixo para cima), o fundo preenchido com o céu azul, em nenhum momento do filme eu, como espectadora enxerguei Querô como um garoto “ruim”, como alguém que machucava por machucar e sentia prazer obter as coisas por meio do crime e da coerção, ele se fez a partir daquilo que conhecia, por isso o fundo azul, em alusão ao paraíso.

Após ser mandando à Febem, Querô tem uma briga com um garoto que já estava na prisão e é trancado numa espécie de cela solitária, assim quando entra o vemos esquivando-se de um inseto, um lembrete de que nosso protagonista (assim como os meninos que nele estão representados) é só um garoto, um menino menor de idade com medo de um inseto. Em seguida vemos talvez a cena mais emocionante presente na narrativa quando Querô esconde-se no canto de sua cela e pergunta à fresta de luz que parcialmente ilumina seu rosto por que ele veio ao mundo.

“Porra mãe, eu nunca fui nada, sempre me fudi. Vivo de favor, durmo de favor, como de esmola. Isso presta, mãe? Isso acaba com a gente, deixa a gente ruim, mãe”

A fala acima, proferida por Querô nos remete à nossa discussão teórica. Isso deixa a gente ruim?

Querô nunca foi desejado, exceto por pouco tempo pela sua mãe, que relutou em abandoná-lo, mas o fez. Ele foi criado pela dona do prostibulo responsável pela expulsão de sua mãe, e desde criança era trancado numa espécie de armário privado de qualquer tipo de afeto, carinho ou admiração que só viria encontrar nos criminosos que o ensinariam a ganhar dinheiro e ser respeitado na comunidade, é com essas pessoas que Querô aprende que o melhor é o que tem a melhor arma, é com ela que ele conseguirá dinheiro e uma boa vida, declara como principal objetivo conseguir uma arma e uma vingança, o mesmo garoto que tinha medo de um inseto e não o matou, agora quer uma arma.

A sequencia da rebelião também é uma que merece destaque na discussão, um ponto de transformação importante na vida do personagem. Acho interessante perceber o quão clara está exposta a relação de classes e poder, os “Querôs” que apanharam e sofreram muito antes de chegar ali se voltam contra a “classe superior” (representada pelo cuidador) que nunca fez nada por eles. E mais uma noção pessimista de circularidade é estabelecida na narrativa, o eterno bate e revida de uma sociedade que não cuida de si mesma, bate em si, apanha de si.

Ninguém “é” ou nasce sendo alguma coisa, estamos o tempo todo em contato com o meio e sujeito a mudanças, a solução “mágica” seria não reduzir a mudança à um individuo e abrangê-la para o ambiente, se o sujeito muda quando muda o ambiente, então mudando o ambiente muda-se o sujeito, acredito que o maior problema apontado no filme é que a sociedade como um todo não se enxerga como um todo, vê-se divida em classes hierárquicas, cada uma cuidando da sua e não percebe que nossas relações são múltiplas e estão interligadas, a classe menos favorecida sobrevive com aquilo que lhes é oferecido, e a classe média sofre com a violência sem enxergar os violentos como produto dessa divisão.

“Querô” é um filme nacional muito bem executado que levanta com muita competência questões como violência, determinismo, vulnerabilidade social, aborto, sistema prisional, entre outros, é um filme perigosamente realista que conta como foi a vida daquele que a classe média chama de bandido, e me fez concluir que se eu tivesse nascido e me criado como esse garoto, seria como ele. Pra quem não entendeu ou gostaria de de aprofundar no assunto, sinta-se a vontade a uma discussão nos comentários, mas antes escutem essa história que o Gabriel O Pensador tem pra contar:

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Estudante de psicologia, cinéfila entusiasta, seriadora e leitora. Dona da página "Curiosos por Filmes" no Facebook. Séries favoritas: Criminal Minds, Chuck, Friends e One Tree Hill. Os filmes favoritos são mais difíceis de escolher...