Depois ter trabalhado com “Carrie, A Estranha” em março, e agora com “IT – A Coisa”, nossa série de homenagens não poderia deixar de comentar sobre a trajetória do grande escritor por trás desses clássicos.

Stephen King começou escrevendo pequenos contos para revistas semanais. Seu primeiro romance foi o famigerado “Carrie, A Estranha”, mas o próprio King revelou não ter gostado do produto final, chegando até mesmo a descartar os manuscritos, mas felizmente, sua esposa, Tabitha King, o resgatou da lata de lixo e convenceu o marido a tentar publicá-lo. A primeira publicação de Carrie foi feita em 1974, e rapidamente teve seus diretos comprados para ganhar uma adaptação cinematográfica pelas mãos de ninguém menos que Brian De Palma, um dos diretores mais aclamados da época. O filme saiu em 1976, apenas dois anos após o livro. Sucesso, não?

Pouco tempo depois, King chegou com “A Hora do Vampiro” (1975), uma obra mais modesta, mas que ainda trouxe um impacto positivo ao seu nome. O destaque mesmo veio em sua terceira publicação, com “O Iluminado” (1977), livro que ele começou a escrever logo depois de Carrie, após ter passado por uma fase difícil da vida, tendo perdido sua mãe e se afundado no álcool, inclusive o autor chegou a confessar que o personagem de Jack Torrance foi inspirado nesse momento conturbado de sua vida. Novamente, o sucesso da obra dispensa comentários, tendo sido adaptado para os cinemas em 1980, pelo ilustre Stanley Kubrick, que fez diversas alterações na construção dos personagens, indo contra a própria vontade de King, todavia é inegável que o impacto do longa tenha alavancado mais ainda a carreira do autor.

Com o sucesso de “Carrie” e “O Iluminado”, tanto nas livrarias como nos cinemas, o nome de King tornou-se referência no gênero de terror e abriu caminho para obra mais ousadas, como “A Dança da Morte” (1978) que trouxe cerca de mil páginas narrando uma história sobre o fim dos tempos, “Christine” em 1983, que acompanhava os crimes cometidos por um “carro assassino”, e posteriormente veio com “O Cemitério”, que ressuscitou uma criança vingativa determinada a punir seus pais negligentes. Todos esses títulos possuem temas sobrenaturais pouco explorados na época, e dificilmente receberiam a chance de serem publicados, se não fosse pelas mãos de alguém consolidado na indústria.

Em 1986, na época em que os filmes de monstro estavam no auge, King lançou o livro “IT – A Coisa”, trazendo um misto de tudo que ele havia feito de bom nas obras anteriores, tornando essa uma de suas histórias mais marcantes e excepcionais. Em suas mais de mil e cem páginas, “A Coisa” acompanha um grupo de crianças lutando contra o palhaço Pennywise, uma entidade que pode assumir a forma que for conveniente na hora de aterrorizar suas vítimas. O livro ganhou destaque pela ousadia de colocar crianças diante de um vilão tão poderoso, algo que não era comum nem mesmo no cinema, e por mais que filmes como “Brinquedo Assassino” trouxessem uma criança como protagonista, jamais a franquia teve coragem de colocá-la em cenas grotescas e violentas como King fez em seu livro. O terror não foi o único destaque da obra, pois além de tudo, ela trazia um grupo de personagens extremamente bem desenvolvidos, com uma química linda e que conseguiam exercitar a empatia do leitor em cada uma das páginas.

“A Coisa” foi adaptada inicialmente como uma minissérie de dois capítulos, lançada em 1990, estrelada por Tim Curry, que viveu o grande vilão da história e cravou a figura do palhaço assassino no imaginário de todas as crianças dos anos 90. A produção não teve toda a garra do livro na hora de adaptar a violência e dar vida a momentos delicados que são descritos por King, portanto a ideia de fazer uma nova adaptação em um estúdio milionário como a Warner Bros acabou agradando a maioria dos fãs. O novo filme estreia no dia 7 de setembro.

Agora, depois de tudo que foi dito, você deve estar se perguntando em que momento surgiu a tão aclamada série literária “A Torre Negra”, correto? Pois bem, as histórias que hoje conhecemos por esse título começaram a ser escritas nos anos 70, quando o autor ainda era um estudante universitário, ou seja, antes mesmo de “Carrie”. O primeiro livro da coleção, “O Pistoleiro”, foi publicado apenas em 1982, mas antes disso a história já acontecia através dos jornais para os quais King escrevia capítulos semanais, dando vida a todo aquele universo fantástico que posteriormente se consolidou na alta literatura de fantasia.

Apesar de ter tido seu nome consolidado como “mestre do horror”, os fãs de King sabem que o forte de suas obra está no drama, e muitas vezes ele usa as próprias circunstâncias dramáticas para criar seus monstros sobrenaturais. Romances como “À Espera de um Milagre”, “O Apanhador de Sonhos” e o conto “Conta Comigo”, são alguns dos exemplos de clássicos, nos quais o autor praticamente deixou o sobrenatural de lado e focou apenas nas relações e nos medos reais de seus personagens. Até mesmo o celebre “IT” é mais consagrado pela profundidade dos protagonistas e os problemas que eles enfrentavam com os pais e o bullying na escola, do que com o Pennywise propriamente dito.

Portanto, se você está lendo esse texto e ainda não teve nenhum contato com as obras desse grande autor, essa é uma boa hora de começar. Livros de contos, como “Sobras da Noite”, “Tripulação de Esqueletos” e “Quatro Estações” são boas sugestões para os iniciantes, mas quem prefere ir direto para um romance, temos “Carrie, A Estranha”, “O Cemitério”, e até mesmo o recente, “Joyland”, ambos com histórias intrigantes e que vão lhe ajudar a se acostumar com a escrita de Stephen King.

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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.