As garras da representatividade em Pantera Negra

Todos nós sabendo das grandes mudanças que o cinema está tendo nesses últimos anos. Produções como Mulher-Maravilha e Mad Max: Estrada da Fúria empoderaram mulheres em filmes que souberam usar a representatividade de uma forma incrível, provando que não há nenhum problema em ter mulheres protagonizando blockbusters e que isso só era capaz de enriquecer a indústria e seus conteúdos.

Dito isso, cedo ou tarde teriam de fazer o mesmo para a representatividade negra, algumas séries já andavam trabalhando bem com a inclusão do Wally West dos “Novos 52” em The Flash e a adaptação das HQs de Luke Cage e Raio Negro, mas o cinema ainda necessitava de um blockbuster que representasse tudo isso em uma grande escala.

Primeiro é importante contextualizar, Pantera Negra é um super-herói da Marvel Comics criado pelo escritor e editor Stan Lee e pelo escritor e ilustrador Jack Kirby. A sua primeira aparição ocorreu em Fantastic Four #52, em julho de 1966, durante a famosa Era de Prata das histórias em quadrinhos.

As aventuras retratavam Pantera Negra como T’Challa, rei e protetor de Wakanda, país fictício localizado na África. Além de possuir habilidades aprimoradas alcançadas através de um antigo ritual de Wakanda, T’Challa também conta com seu intelecto genial, treinamento físico rigoroso, habilidade em artes marciais, acesso a tecnologias avançadas e riqueza para combater seus inimigos.

O herói já fez inúmeras aparições em vários programas de televisão, filmes animados e videogames, mas só chegou aos cinemas em Capitão América: Guerra Civil, vivido por Chadwick Boseman, dando início a uma possível nova era para a representatividade negra nas telonas.

Claro que, assim como tivemos pessoas desmerecendo Mulher-Maravilha alegando que ele não era o primeiro longa-metragem baseado em quadrinhos com protagonista feminina, citando produções como Supergirl e Mulher-Gato (Sim, isso realmente aconteceu), nós também temos aqueles que resgataram Blade – O Caçador de Vampiros e as participações de Máquina de Combate na franquia do Homem de Ferro e Falcão nos filmes do Capitão América no intuito de diminuir o poder de Pantera Negra e o que ele representa.

Entretanto, é bom lembrar que Blade, apesar de extremamente importante para começar as novas adaptações de super-heróis, ainda é uma produção bem datada, enquanto o Falcão e Máquina de Combate possuem a função de “melhor amigo do protagonista”, sem um grande arco a ser desenvolvido, o que impossibilita de categorizarmos eles como bons exemplos de representatividade.

Pantera Negra está se destacando, pois agora fomos capazes de presenciar o universo e a mitologia de Wakanda, um país fictício da editora, mergulhado em referências históricas e culturais do continente africano que retira a aparência de fraqueza e pobreza associada por muitos e revela a nação mais evoluída tecnologicamente e que não depende da ajuda de ninguém além dela mesma.

O filme ainda abrange diversos elementos que movem a trama, como o conceito de comunidade, o orgulho de sua cultura, a imponência e peso de suas mulheres e a força que permitiu com que sobrevivessem há tantas mazelas, desde os tempos de escravidão até os dias modernos. Além do bom uso da brilhante técnica de figurino e fotografia, destacando cores e visuais de vestimentas características de muitos povos do continente e é claro, a trilha embasada em batidas africanas intercaladas com hip-hop, que empregam um ritmo icônico para a aventura heroica de T’Cala.

Como podem perceber, Pantera Negra honra suas diversas raízes de inúmeras maneiras e o faz de uma forma pop, divertida, empolgante e profunda, entregando um dos maiores filmes da Marvel feitos até hoje, valorizando atores e diretores, tornando os negros empoderados e imersos na cultura pop, inspirando novas crianças e provocando o começo de uma mudança em Hollywood.

Por muito tempo estereótipos, preconceitos e caricaturas marcaram os personagens negros no cinema. Os estúdios não viam potencial em projetos desse tipo para o grande público, mas assim como houve o tempo para quadrinhos assumiram as mudanças do mundo, chegou a vez desses universos cinematográficos fazerem o mesmo.

Vale lembrar também que na possível nova formação dos Vingadores podemos ter Pantera Negra como o mais provável para substituir o peso e os ideais do Capitão América, simbolizando o líder máximo da nova Marvel nos cinemas.

Wakanda para sempre!

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Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.