Quando pensamos em filmes de terror rapidamente vem aquelas imagens assustadoras que nos fazem tapar os olhos ou geram qualquer outro tipo de reação perturbadora. Acontece que parte desses sentimentos, tem como origem as nossas próprias experiências pessoais, crenças e medos. Parece simples e até óbvio, mas para muitos não é. O ponto em que eu quero chegar é em relação a importância do drama para um filme de terror. Uma vez que conseguimos nos projetar no lugar do personagem, podemos compartilhar as experiencias e conflitos, deixando a narrativa conduzir o nosso olhar.

O último filme que fez uso do drama muito bem e conquistou um grande público foi o americano, Invocação do Mal. Afinal fica difícil não se conectar com aquela família que estava tentando se manter unida mas é infortunada por espíritos malignos em sua nova casa. No nosso dia a dia podemos substituir esses “espíritos” por diversos conflitos que enfrentamos, portanto toda aquele conflito por si só já é assustador e o sobrenatural serve apenas como um requinte para alcançar o terror absoluto.

Finalmente em A Bruxa temos exatamente isso, um roteiro que soube valorizar um bom drama e dar pinceladas de terror sem cair em diversos clichês ou explorar as possibilidades de assustar o telespectador a todo momento. Aqui o nosso suposto vilão pouco é mostrado, e na maior parte é apenas citado. A tensão é carregada pelo enredo e principalmente sua trilha sonora que é impecável e nesse ponto ele se iguala ao Exorcista e O Iluminado que tinham uma das sinfonias mais macabras do gênero.

Além da trilha sonora excepcional temos uma fotografia e direção que faz questão de quebrar diversos dilemas do gênero, e em muitos momentos em que esperamos um “Jump Scare” há um corte imediato que apenas ressalta o verdadeiro foco da produção, que é criar um bom filme e com terror genuíno.

 

A Bruxa - Cine Mundo

 

Outro ponto forte e até mesmo surpreendente são os atores e seus respectivos personagens que em nenhuma momento ficam dispersos na historia e recebem uma interpretação impecável com destaque total a Ralph Ineson que com sua voz grave e performance notável consegue transmitir toda a carga emocional do personagem que transita entre momentos de dureza e sensibilidade. O outro destaque fica para Anya Taylor-Joy que da vida a protagonista do filme e nos deixa aflito com sua personagem enigmática que em momento algum revela suas intenções.

Porem o filme não chega a ser perfeito. Apesar de possuir uma narrativa envolvente com ritmo crescente e marcar pontos positivos explorando o drama familiar, a historia em si não é das mais incríveis ou memoráveis, na verdade é até simples, mas consegue ser suficiente para tornar o filme notável e um destaque dentre outras produções atuais.

A Bruxa é um filme de terror excelente, que não chega a ser “um dos melhores de todos os tempos” como muitos dizem, mas consegue facilmente passar a perna em vários colegas dos últimos 10 anos. Esse filme não é para você que busca sair do cinema com medo de dormir sozinho, até pode acontecer, mas não é o foco da película. Essa produção é para quem busca antes de tudo algo de qualidade acima do seu gênero.

Agora contemplem essa trilha sonora macabra:

REVIEW OVERVIEW
Nota
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.