“Quando ele olha para mim, não sabe como eu sou incompleta. Ele me vê como eu sou”

Desde o anúncio da produção de “A Forma da Água” eu possuía grandes expectativas com o filme, afinal admiro profundamente os universos monstruosos de Guillermo Del Toro que variam de gênero e formato, seja na série animada “Caçadores de Trolls”, na adaptação dos quadrinhos “Hellboy”, no visionário “O Labirinto do Fauno” ou no subestimado “Círculo de Fogo”, quase sempre ele entrega um trabalho com imenso nível técnico e, ao mesmo tempo, profundo, desenvolvendo histórias humanas em mundos do horror.

Crítica: A Forma da Água

Na trama nós conhecemos Elisa (Sally Hawkins), uma mulher muda dos anos 60 que trabalha em um laboratório secreto avançado, nesse ambiente ela encontra um monstro aquático (Doug Jones) que é mantido preso e acaba se afeiçoando por ele, sendo que aos poucos inicia-se um plano de fuga para tirá-lo desse lugar.

A melhor forma de categorizar o longa seria como uma audaciosa mistura de “Amélie Poulain”, os games “Bioshock”, alguns filmes da Disney e o “Monstro da Lagoa Negra”, pois aqui em seu novo filme, Del Toro mistura muitos conceitos e consegue desenvolver cada um deles muito bem, como verdadeiros contos de fadas, com direito a horror clássico, ambiente steampunk, tensão da Guerra Fria, drama e humor.

Apesar de ter duas horas de duração o filme consegue ser extremamente dinâmico e dividir bem seu espaço com o tempo certo para nos fazer rir, chorar e nos empolgar com a jornada de Elisa para libertar “a criatura”, enfrentando o pior da humanidade, representado pela figura machista, homofóbica e violenta de Strickland (Michael Shannon).

O que permite que tudo seja tão bem construído é o romance, narrado aqui na forma de um conto de fadas sombrio, que teve o trabalho difícil de desenvolver um script, não apenas com uma personagem muda, mas também com uma relação de afeto e erotismo que surge de dois protagonistas silenciosos em palavras, mas totalmente expressivos e carismáticos, mostrando que o filme não funcionaria tão bem se não tivesse sido escrito com tamanha delicadeza e sem pudores.

“A Forma da Água” ainda consegue guardar muitas surpresas, pois em diversos momentos brinca com conceitos de terror e suspense nos fazendo crer que a jornada seguirá por um determinado caminho e acabamos sendo extremamente surpreendidos pelas decisões quue são tomadas.

Mas não é apenas esse romance que acompanhamos, a produção também nos mostra em pequenas nuances o cotidiano de pessoas comuns e trabalhadoras alheias à toda a pressão da Guerra Fria, que tem de combater muita crueldade nos comportamentos hostis repletos de abuso, homofobia, machismo e racismo, fazendo com que possamos refletir ao redor da trama sobre quem é realmente humano nesse enredo.

No elenco temos nomes como Michael Shannon, Doug Jones, Sally Hawkins, Richard Jenkins, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer e Lauren Lee Smith.

Crítica: A Forma da Água

Sally Hawkins e Doug Jones roubam a cena sempre que aparecem, Hawkins é a “princesa”, interpretando uma mulher muda e apaixonada, de fortes convicções e que expõe um espírito dotado de grande moral e empatia, ela é o nosso guia pela história. Já Jones personifica o “príncipe encantado” na figura de um monstro com uma composição realista que privilegia as expressões do ator, nos faz enxergar um ser solitário, confuso, doce e bestial, sem precisar dizer nenhuma palavra. A química dos dois está incrível e funciona brilhantemente, os medos de ambos são dissipados à medida que o romance complexo entre eles surge de forma poética e profunda.

Octavia Spencer é bem graciosa como Zelda, ela faz as funções tanto de alívio cômico como de voz da razão e racionalidade para Elisa, sempre com muito carisma e arrancando risadas a cada comentário que faz. Outro que também não faz feio é Michael Shannon, esse papel caiu como uma luva para o ator acostumado com vilões e personagens cheios de perturbações, aqui assumindo Strickland, um homem brutal fruto da época conservadora e que tenta justificar seus atos doentios à todo momento se dizendo ser um homem decente (você já deve ter ouvido esse discurso muitas vezes), ele ainda apresenta diversas nuances de preconceito e desprezo, desenvolvendo um antagonista que deve ser um dos melhores do ano e é o responsável pelo grande tom de terror da produção.

O restante do elenco é bem competente e não há deslizes nas performances, seja no duvidoso cientista Hoffstetler de Michael Stuhlbarg, no simpático Richard Jenkins como Giles ou no imponente General Hoyt de Nick Searcy.

A direção de fotografia se concentra em explorar tons de azul e verde, simbolizando não só o cenário do laboratório, como também faz referência às águas e ao habitat de lodo do monstro aquático. Há também muitos usos de amarelo e sépia que criam essa visão, não só romântica, como também contextualizada com a época, tudo isso se mistura com sombras e os fortes contrastes, além dos movimentos de câmera recheados de travellings, closes e planos sequências que captam muito bem a essência da produção e nos convida a mergulhar cada vez mais nesse ambiente carismático.

A direção de arte também não fica atrás e cumpre seu papel com louvor, criando cenários refinados e belíssimos. Se por um lado temos o ambiente científico e sombrio do laboratório, lugar onde grande parte da trama é desenvolvida e traz toda esse espírito de terror para a produção, há também o espaço para a poesia e magia expostos na casa tanto de Elisa, como na de seu amigo, Giles, onde cada pequeno objeto é bem trabalho e ajuda a compor o visual do filme. Claro que também não poderiam faltar os figurinos, historicamente fiéis, com cada uma das vestimentas nos situando a respeito de suas classes sociais, seja com o cientista Dr. Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) ou com a dona de casa Elaine Strickland (Lauren Lee Smith).

Crítica: A Forma da Água

Mas como falamos de um projeto de Del Toro é preciso ressaltar a estética dos efeitos práticos, como a maquiagem e toda a criação por trás do ser aquático, é perceptível que ele foi claramente inspirado em O Monstro da Lagoa Negra, mas aqui com contornos de luzes azuis por todo o seu corpo e uma estrutura que alterna entre um ar dócil com um comportamento hostil de uma fera, mas acima de tudo, você é capaz de crer que este monstro é real tamanha técnica empregada para criá-lo.

A direção de Guillermo Del Toro está ótima, com ele mais uma vez se provando como um grande contador de histórias (apesar de muitas vezes ser menosprezado pela indústria de Hollywood), sintetizando um longa que precisa de muito equilíbrio entre seus gêneros para funcionar, afinal não é uma tarefa fácil caminhar entre a fantasia e o real, a delicadeza e a brutalidade, mas ele consegue fazer isso com muita fluidez, sem que um determinado tom atrapalhe o seguinte e, acima de tudo, nos faz crer nesse improvável conto de amor e tragédia que revela as características mais profundas da natureza humana.

Não é nenhum exagero concluir que a “A Forma da Água” é a obra-prima de Guillermo Del Toro, todos os seus conceitos de “A Espinha do Diabo” e “O Labirinto do Fauno” alcançaram em seu novo filme um patamar que até então ele não havia conquistado, lidando com um mundo próprio, repleto de fantasia, horror e romance, que por baixo de tantas diferentes camadas, existe uma grande mensagem falando da pureza do amor, sobre sermos quem somos e da união dos marginalizados e segregados contra os “homens de bem”.  A sociedade ainda tem muito o que aprender e evoluir, mas pelo menos nós temos dentro do cinema pessoas como Del Toro, empenhadas em nos ensinar um pouco sobre os erros cruéis cometidos no passado e no presente por nossas atitudes inconsequentes.