“Eu percebi que apenas sendo a melhor eu seria ouvida”

Com o final do ano se aproximando, alguns filmes cotados ao Oscar começam a surgir. “A Guerra dos Sexos” é um desses, afinal traz a última ganhadora do prêmio de melhor atriz, Emma Stone, e o elogiadíssimo, Steve Carell.

Na trama acompanhamos a história real da atleta Billie Jean King (Emma Stone) que no auge de sua carreira como jogadora de tênis, ela se vê em um embate com o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell). Mais do que um simples jogo, toda a repercussão midiática acerca desse evento torna a disputa uma briga por igualdade, em um mundo no qual as mulheres ainda eram vistas como inferiores aos homens, desvalorizadas e rejeitadas em diversas profissões. Além de suas preocupações como mulher, Billie Jean ainda precisa lidar com o seu casamento conturbado e a sua sexualidade que acaba sendo aflorada por um amor repentino.

Ao mesmo tempo que o filme é situado em uma época extremamente antiga, o seu tema é totalmente relevante nos dias atuais. Acompanhar mulheres lutando por salários iguais nos anos 70, é empolgante, mas saber que esse problema se perpetua até a atualidade, é assustador. Isso sem contar com a homossexualidade da protagonista que é reprimida e muitas vezes colocada como empecilho em sua vida profissional, afinal uma sociedade homofóbica jamais aceitaria uma atleta homossexual, e mesmo com diversas melhorias, sabemos que em muitos lugares esse preconceito ainda persiste.

O roteiro se mantém no previsível, afinal trata-se de uma história com embasamentos reais, e mesmo que diversas alterações sejam feitas, o cerne da trama precisa se manter coeso aos acontecimentos que a inspiraram. Dessa forma o destaque do texto consiste em sua agilidade, o plot do filme é estabelecido logo na primeira cena, onde a protagonista questiona seu chefe sobre a desigualdade de salários e o mesmo se recusa a prestar contas, fazendo com que Billie Jean corra atrás de seus direitos junto de outras atletas que a apoiam.

Mesmo com algumas frases de efeito esporádicas, o roteiro ainda conta com excelentes diálogos que ajudam a tornar as cenas orgânicas e os personagens mais compreensíveis. O grande charme está na maneira como o roteirista lida com os diversos temas retratados, de forma que mesmo tratando-se de problemas sérios, o longa carrega a mensagem com um delicioso equilíbrio de drama e humor, o que jamais o deixa piegas ou até mesmo cansativo.

O elenco inteiro desempenha um trabalho incrível e admirável, mas é Emma Stone e Steve Carell que dominam cada uma das cenas em que protagonizam. Como Billie Jean, Emma entrega o seu melhor trabalho no cinema, e se com La La Land ela já ganhou o Oscar de melhor atriz, não seria nenhuma surpresa caso ela seja, ao menos, indicada na premiação desse ano. O mesmo vale para Carell, que está irreconhecível em sua personificação brilhante dessa figura que marcou a história do tênis. Ambos os personagens lidam com arquétipos delicados e que facilmente poderiam ficar caricatos, mas isso jamais ocorre graças ao capricho dos atores e da direção consistente.

A direção de arte é magnifica e proporciona uma verdadeira viagem no tempo, desde os créditos iniciais da Fox que emulam a abertura dos anos 70, até os próprios figurinos e penteados que são determinantes para a personalidade de cada um dos personagens. No caso de Billie Jean, o seu cabelo é quase como um reflexo das mudanças que ela passa ao longo da história, que no fim se mostra apta a novas experiências em sua vida profissional e amorosa.

A fotografia é um dos aspectos menos deslumbrantes do filme, porém executa a sua função com muito cuidado e discernimento. Assim como na arte, há uma clara intenção de aproximar o público da experiência de assistir um filme que realmente se passa na década de 70, portanto diversos planos, ângulos e movimentos de câmera, buscam referências de filmes dessa época, tornando as composições de cena pouco inovadoras, mas muito coerentes.

A direção fica por conta da dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris, que juntos conseguem abordar essa história marcante de uma forma atual e envolvente, impondo uma condução poética e bem humorada para a trajetória de Billie Jean.

Outro detalhe que merece ser mencionado é a trilha sonora maravilhosa e muito bem encaixada no filme. É comum que produções de época utilizem um leque de canções para ajudar na ambientação da história, porém muitas vezes esse recurso torna-se demasiado e apelativo. Felizmente não é o que acontece aqui.

“A Guerra dos Sexos” é um emocionante relato de superação, e autoafirmação em uma sociedade preconceituosa e marcada por princípios patriarcais. Mesmo anos depois da história retratada, a sua mensagem continua presente e relevante, promovendo discussões e reflexões em diversos âmbitos sociais.