“Um, dois, Freddy vai te pegar. Três, quatro, é melhor trancar a porta”

Aproveitando essa véspera de Halloween, a Cine Mundo preparou algumas críticas de filmes icônicos do gênero de terror, entre eles “A Hora do Pesadelo” (1984).

Esse foi um dos filmes de terror que mais se perpetuou na mente das pessoas e gerou uma grande, e estável, franquia. A história até já ganhou um remake em 2010, mas aqui falaremos apenas do primeiro e clássico, escrito e dirigido por Wes Craven, produção que ajudou a popularizar o subgênero “Slasher”, sendo o precursor de diversos jump scares, estruturas narrativas e outras influências na indústria cinematográfica.

Na trama, os jovens, Nancy Thompson (Heather Langenkamp), Tina Gray (Amanda Wyss), Glen Lantz (Johnny Depp), e Rod Lane (Jsu Garcia), são atormentando em seus sonhos por Freddy Krueger (Robert Englund), um homem de rosto queimado, suéter vermelhos e grandes garras que os caça, noite após noite, sem nenhum adulto para acreditar neles, será preciso aprender a combater esse monstro e desvendar alguns mistérios para sobreviverem.

Antes de tudo é preciso se colocar na época de lançamento, muitas das ideias podem parecer pequenas e pouco elaboradas, mas foram extremamente inventivas naqueles anos, ajudando a definir esse estilo de enredo. Como esse é um filme já bem antigo, o texto a seguir terá alguns spoilers para que possamos analisar a obra da melhor maneira possível.

Após uma misteriosa apresentação, temos um desenvolvimento em três atos bem estruturados, com um final um tanto apressado e uma curiosa plot twist nos últimos segundos.

O primeiro trata de apresentar o grupo de amigos formado por Nancy, Rod, Tina e Glen, e aos poucos introduz o grande charme da história, os pesadelos, que ganham um forte caráter de perigo para os jovens. A partir daí temos tudo que o público precisa, cenas gore, bom suspense e, a aparição, não apenas de seu vilão, como de toda sua mitologia onírica.

Ao longo da produção, o roteiro brinca muito com os conceitos dos sonhos e pesadelos, às vezes pensamos estar na realidade só para sermos surpreendidos por mais um ataque de Freddy. Isso foi uma grande inovação e ajudou a fazer o medo por esse personagem ser levado por cada um que assistiu, além disso, ainda há um uso pontual de jump scares, e do suspense, tudo muito bem trabalhado no script, principalmente nesse meio do filme.

Surge nesse momento a virada na trama, com a morte de Tina, Rod acaba por ser levado pela polícia e é incriminado. Nesse ponto a dupla de “heróis” (Nancy e Glen), terá que descobrir como sobreviver, e como salvar o amigo e desvendar a verdade por trás dos eventos.

O que fortalece o segundo ato é a forma como souberam esconder bem a verdade sobre o Freddy e destrincha-la em mínimos detalhes. Trazer a informação de que ele foi morto pelos pais de cada um dos garotos, foi uma parte essencial e responsável por inserir um clima de paranoia e desespero na protagonista.

Sua terceira parte é a mais empolgante, pois cada descoberta, seja de como funciona um pesadelo, ou o segredo que os pais esconderam, caminham para o clímax do embate entre a heroína e o monstro. O problema é que para agilizar, o filme opta pelo uso de alguns diálogos expositivos sobre a dinâmica de um pesadelo, e como usa-lo à seu favor, mas felizmente o plot twist final nos leva a enxergar que o desfecho feliz era apenas uma mentira, nos mostrando que tudo foi mais um pesadelo criado por Krueger, brincando novamente com a linha tênue entre sonho e realidade.

O elenco teve o promissor Johnny Depp como Glen Lantz e a desconhecida Heather Langenkamp como Nancy Thompson, ambos são os maiores destaques ao lado de Robert Englund como a figura sombria de Freddy Krueger. Englund foi bem marcante, talvez uma das encarnações mais fortes no gênero, cruel e com um senso de humor deturpado, ele persegue suas vítimas não só com ferocidade, como também parece estar sempre se divertindo às custas de seus sofrimentos.

Heather foi escolhida a dedo por Wes Craven, pois ele buscava alguém diferente do modelo hollywoodiano, e ela consegue interpretar a agonia e o desespero de Nancy muito bem, fazendo-nos torcer pela personagem em sua jornada por sobrevivência. Já o jovem Depp era apenas um estreante, tinha carisma e divertia, mas sua função era apenas de ser a escada e apoio para Langenkamp dominar o filme. Outros atores e atrizes, como Sandy Lipton, John Saxon, Ronee Blakley, Amanda Wyss, Jsu Garcia, entre outros, tem atuações convincentes apenas, mas nada excepcional, o foco não é neles, e sim no trio Englund, Depp e Langenkamp.

Os figurinos correspondem ao que seria normal de seus personagens usarem, o charme da direção de arte está no mundo de Krueger, cuja composição é tão destacada quanto seu ator, com suéter, chapéu e sua garra se sintetizando em uma criação cheia de originalidade, do tipo que é raro se ver hoje em dia. Os cenários dos pesadelos também são ótimos, trazendo uma construção que simboliza as origens de sua morte na caldeira que o transformou no monstro icônico do terror.

*Ainda no âmbito técnico, temos a fotografia com uma direção competente, mas repetindo mais uma vez, o forte é a mitologia onírica, logo o destaque é bem maior para os momentos dentro dos pesadelos, dessa forma o diretor manipula bem as luzes e usa dois tons de cores ao longo da produção, azul claro e sépia avermelhado, mas são os movimentos de câmera que fazem a perseguição e o suspense funcionarem bem.

Os efeitos abusam de luzes e da computação gráfica em alguns pontos, como na conclusão, e por isso o filme não parece ter envelhecido bem. Há algumas boas cenas, como a da mão atravessando a parede (que inclusive é homenageada na série da Netflix, “Stranger Things”), no entanto, seus detalhes de efeitos práticos se saem muito melhor, e mesmo com momentos como a clássica morte de Glen, com sangue jorrando da cama para o teto, pareça um exagero gigantesco que te tira um pouco do ambiente sinistro, mas ainda é mais aceitável do que certos CGI dos anos 80, que são ultrapassados para os nossos olhos.

A direção de Wes Craven é competente, sabendo direcionar bem entre os planos da história, combinando trilha e suspense com maestria, e desenvolvendo sequências de perseguição que extraem o melhor desse universo de terror que ele criou. Há apenas alguns pequenos erros que são deixados passar nos momentos finais da trama, mas nada que comprometa o material conduzido até então.

Por último, mas não menos importante, está o aspecto que mais auxiliou a produção, com toda certeza, 80% de tudo não teria funcionado sem a trilha sonora icônica do longa, composta em uma época na qual o som tinha total importância para ambientar os filmes tenebrosos. Dessa forma, temos um uso de música eletrônica de sintetizadores que parece ter saído de um fliperama, alternando com uma música de ninar com sons mais impactantes para as mortes, sendo que no final de tudo, é ela que dá o tom certo desse clássico.

“A Hora do Pesadelo” marca muito mais pelas ideias e conceitos que ajudou a repercutir para o subgênero “Slasher”, brincando com as definições e fronteiras entre o imaginário e o real. Muito de suas ideias sobre sustos, suspense e estrutura de terror, foram copiadas e reinventadas várias e várias vezes no cinema. Seu pequeno número de personagens e sua premissa parecem simples para quem vê hoje, mas foi extremamente inovador em sua época, se tornando um clássico e uma grande franquia que não sabemos se retornará aos cinemas, mas se esse for o caso, esperemos que honre os envolvidos nessa grande obra.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
7
Direção
9
Atuações
7
Direção de Fotografia
8
Direção de Arte
8
SHARE
Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.