Sabe aquele filme despretensioso que passa longe de ousar, mas é extremamente eficiente na hora de entreter e passar uma bela mensagem adiante? Bom, esse é exatamente o caso de “Antes Que eu Vá”, adaptação cinematográfica da obra de Lauren Oliver.

Samantha Kingston (Zoey Deutch) é uma garota de classe média alta, bonita, carismática, criada em uma família bem estruturada e aparentemente nunca passou por qualquer dificuldade em sua vida, seja em casa ou na escola. Eis que em uma sexta-feira que deveria ser repleta de novas experiências, ela acaba sofrendo um acidente e morrendo. No entanto, no ápice do que seria a sua morte o dia se reinicia novamente como se tudo tivesse sido um sonho. Será que foi?

Essa incógnita permanece na cabeça do público durante boa parte do longa, e funciona muito bem graças ao roteiro extremamente bem estruturado durante todo o desenvolvimento da trama, apesar de tudo, o texto ainda escorrega e comete excessos no uso da “repetição do mesmo dia”, recurso que funciona à princípio, mas começa a cansar em determinado momento.

O elenco é bem dinâmico, mas quem de fato da o tom do filme é a jovem Zoey Deutch, que através de seu carisma cria um vínculo com o público e consegue transmitir as aflições de Samantha, que encontra-se presa em um loop infinito de repetições, das quais ela não tem controle. Halston Sage interpreta Lindsay, uma jovem que esconde sua insegurança através de suas atitudes inconsequentes, mas que mesmo com todos os seus defeitos ainda é a melhor amiga de Samantha. O restante do elenco não chega a exercer um peso significativo na obra, e praticamente todos conseguem entregar um resultado eficiente, com exceção apenas de Elena Kampouris que interpreta Juliet, uma garota desajustada socialmente que é perseguida pelas amigas de Samantha, apenas por ser “diferente”. O problema é que a personagem é extremamente exagerada, contendo uma fortíssima inspiração em “Carrie” (‘Carrie, A Estranha’ 2013) de Chloë Grace Moretz, no entanto a referência é potencializada e atinge um nível quase cômico, mas que felizmente não chega a comprometer o filme.

Há aqui uma notável inspiração em filmes como “Meninas Malvadas”, contendo a fórmula do grupo de 4 garotas populares que são super paparicadas pelos colegas e usam esse poder para menosprezar quem elas acharem necessário. Samantha é a única do grupo, que apesar de tudo ainda esboça um certo desconforto em relação as atitudes ácidas das amigas, principalmente quando passa a reviver o mesmo dia e percebe o quão gratuita são essas agressões.

Quanto a direção de fotografia, temos aqui uma técnica bem afiada no que diz respeito ao uso das cores como ambientação e caracterização das cenas, nas quais percebemos uma ruptura climática entre as gravações internas e externas, além de uma iluminação que parece escurecer conforme a situação da protagonista vai se agravando. Por outro lado, quanto aos enquadramentos e movimentos de câmera, não notamos uma grande ousadia e o filme se mantém no esperado, que ainda assim, consegue funcionar sem comprometer a experiência.

A arte é bem detalhista e exerce um papel fundamental na hora de construir a linha de continuidade dessa obra que vai e volta no tempo. Detalhes como o origami na cama de Samantha, ajudam o público a perceber a dinâmica temporal do filme. Ainda nos cenários há uma clara construção perfectionista da casa da protagonista, o que reforça a ideia de vida perfeita que ela possui. Os figurinos, além de acrescentarem personalidade aos personagens, ainda são um forte recurso que o próprio roteiro sugere, uma vez que Samantha passa a experimentar vários estilos de vida a fim de encontrar uma explicação para a experiência perturbadora que está vivendo

Como na maioria das adaptações literárias, e principalmente as adolescentes, a trilha sonora não deixa a desejar em nada aqui. Há uma boa variedade de canções que são introduzidas ao longo do filme, sem a necessidade de guarda-las para os créditos.

Ry Russo-Young é a grande cabeça por trás da direção dessa adaptação, e apesar de ainda não possuir uma vasta gama de filmes, percebe-se aqui um interesse claro pelo gênero teen, além de um talento promissor. Ry consegue gerir a equipe em perfeita harmonia, além de construir um clima de suspense que prende do inicio ao fim, explorando cada uma das possibilidades dadas pelo roteiro.

“Antes Que Eu Vá” é um excelente filme adolescente, que irá agradar até os mais velhos por abordar uma história comum de forma sutil, mas com uma linda mensagem em seu interior. É o tipo de filme que entretém e ainda promove uma reflexão pessoal após a exibição.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
7
Direção
9
Atuações
8
Direção de Fotografia
8
Direção de Arte
8
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Guilherme Soares
De São Paulo capital, fundador do Cine Mundo. Sou diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.