Crítica: Atlanta – 1ª Temporada

A primeira temporada da série “Atlanta” foi adicionada ao catálogo da Netflix, e agora podemos dar nossas impressões sobre essa produção que tem sido muito comentada e elogiada desde a sua estreia.

Pois bem, a trama foca em Earnest “Earn” Marks (Donald Glover), jovem que abandona a vida de trabalho que tinha para gerenciar o seu primo rapper, Alfred (Brian Tyree Henry), conhecido também como PaperBoi. A partir daqui, as desventuras dos primos tem início, ao mesmo tempo em que diferentes pontos de vistas sobre diversas questões sociais são trabalhadas episódio a episódio.

Com uma estrutura de humor e drama em episódios de 30 minutos, variados temas são desenvolvidos, mas sempre voltados para a cultura e a realidade dos afro-americanos, com uma ótica crua e descontraída, o que nos ajuda a mergulhar cada vez em seu vasto universo de acontecimentos e personagens.

O roteiro de Donald Glover envolve questões como amadurecimento, uso de drogas, criminalidade, preconceito, relacionamentos amorosos e família, todos tem seu devido espaço para serem introduzidos, fazendo da série um prato cheio para o público, já que está sempre se reinventando e nenhum episódio é como o anterior.

Claro que boa parte dos diálogos e temas não seriam tão bem desenvolvidos se não fosse pelo seu elenco, pequeno, mas muito talentoso, como nomes como: Donald Glover, Zazie Beetz, Keith Stanfield, Brian Tyree Henry, Chris Greene, entre outros.

O maior destaque fica com certeza para o protagonista Donald Glover como Earn, atrapalhado, dedicado e com um certo dom para reclamar de sua vida e de seus problemas, ele é o fio condutor da série com drama, carisma e humor na medida certa, Earn é um dos melhores personagens que já passaram pela TV nos últimos anos. Claro que não podemos esquecer também da ótima química do ator, seja com Brian Tyree Henry (Paperboi) ou com Zazie Beetz (Vanessa Keefer), sempre rendendo ótimas cenas na produção.

Brian Tyree Henry traz muitas das características de muitos rappers conhecidos, sempre praticando ideias imbecis, mas com muita paixão pelo que faz, Paperboi luta constantemente para ter a atenção que julga merecer. Já Zazie como Vanessa, é uma grande surpresa, a trama inicialmente se afasta dela, mas aos poucos é valorizada e trabalhada não só junto de Donald, mas contendo até episódios isolados em que abordam a sua perspectiva como mulher trabalhadora, jovem mãe e namorada.

Keith Stanfield deve ser mais aprofundado no próximo ano, aqui ele interpreta Darius, e é o alívio cômico ambulante da trama, quebrando com a tensão mostrada nos arcos de Paperboi e Earn, sempre arrancando muitas risadas com seu jeito estranho e sem noção.

A direção da Fotografia da série é bem pessoal, com cores escuras, clima pesado e uso de muito contraste de luz. Já nos enquadramentos temos planos mais fechados em closes para extrair a emoção de cada um dos personagens, além de planos conjuntos para a construção das relações, tanto de Earn com Paperboi, quanto de Earn e Vanessa (Zazie Beetz), seja para o humor, ou para aprofundar cada personagem com seus anseios e preocupações humanas, esse é um recurso funcional, sem tantos requintes, mas em sintonia com o estilo alternativo da série.

A direção de arte trabalha melhor na elaboração dos cenários, sempre dando o ar de crueza e realidade, ambos necessários para o tom buscado na série que é o de espelhar a realidade da comunidade afro-americana atual, seja na delegacia, ônibus ou na casa simples e humilde de Paperboi. O foco é demonstrar a riqueza de sua cultura e os problemas enfrentados em diversos ambientes de vivência cotidiana, graças à direção de arte excelente, toda essa mensagem consegue ser transmitida.

A direção no geral é bem consistente e dinâmica, dando valor aos diálogos e personagens, alternando bem entre a comédia e o drama sobre esse universo, fazendo com que prestemos bastante atenção nos variados temas apresentados episódio a episódio conforme a temporada se desenrola.

Podemos concluir que “Atlanta” é uma série inovadora e com um ótimo fôlego, e que não para desde o seu primeiro episódio até o último. Trata-se de uma das grandes surpresas dos últimos anos e que com certeza levará Donald Glover ao grande estrelato.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
10
Direção
9
Atuações
9
Direção de Fotografia
8
Direção de Arte
8
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Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.