Big Little Lies é uma minissérie baseada na obra de Liane Moriarty, que em sua trama apresenta três mulheres distintas que se conhecem e constroem um forte vínculo de amizade, ao mesmo tempo em que disputam pelos melhores status dentro da pequena comunidade de Monterey, que é praticamente toda povoada pela elite da Califórnia.

A sinopse básica quando lida rapidamente pode ser facilmente interpretada como mais uma dessas produções que colocam mulheres brigando entre si, ao mesmo tempo em que disputam pela “melhor conquista”. No entanto a história passa longe disso, temos aqui uma trama que carrega em seus princípios uma mensagem fortíssima sobre união e empoderamento feminino, e o primeiro acerto do roteirista que permite que ele alcance essa mensagem está principalmente na construção das personagens.

Madeline Mackenzie (Reese Witherspoon) é extremamente perfectionista quando se trata de ser mãe, no entanto sua cobrança excessiva acerca de seu papel materno perante a sociedade frequentemente entra em conflito com seus verdadeiros desejos. Celeste Wright (Nicole Kidman) tem o que todos na região acreditam ser a “vida perfeita”, mas em sua privacidade tem que lidar com um relacionamento abusivo que caminha de violência psicológica para física com extrema frequência. Jane Chapman (Shailene Woodley) é o oposto das duas, por não possuir nenhum resquício de “família perfeita” ou qualquer recurso financeiro a sua disposição, é vista como uma mãe jovem e sozinha que faz de tudo para criar seu filho que foi concebido em meio a uma noite violenta da qual ela jamais conseguiu esquecer. A amizade entre as três é fortalecida ao longo da trama, ao mesmo tempo em que elas lidam com seus monstros internos e externos. Outras personagens também vão ganhando destaque no decorrer da narrativa, como é o caso de Renata (Laura Dern) que é uma empresaria extremamente bem sucedida, mas tem que carregar o fardo de ser julgada por não dedicar seu tempo integralmente à sua filha, enquanto Bonnie (Zoë Kravitz) tenta levar a vida mais equilibrada possível, escondendo traumas do passado que acabam vindo a tona no desfecho da história.

Personagens complexos como esses são inicialmente criados por um roteirista talentoso, mas só chegam nas telas após um complexo aprofundamento feito pelos atores, e esse é mais um dos charmes da série. Reese Witherspoon está incrível, como uma mulher que é extremamente vaidosa com sua imagem social, mas que em sua intimidade precisa lidar com as dificuldades de seu casamento, e com sua filha adolescente que está passando por diversos problemas dessa fase. Nicole Kidman é talvez a que alcance o maior destaque tanto por sua performance admirável quanto por sua personagem intrigante que tem de lidar com um marido possessivo, vivido pelo igualmente talentoso Alexander Skarsgård, que juntos constroem a atmosfera nociva de um relacionamento abusivo, expondo as mais diversas camadas dessa condição trazendo uma relevância importantíssima para o tema que é extremamente presente, mas muito ignorado em nossa sociedade. Shailene Woodley interpreta Jane e torna-se a maior surpresa da produção, uma vez que contracenando com duas premiadas atrizes citadas acima seria fácil perder o controle de seus gatilhos emocionais, mas ao invés disso ela traz uma personagem sólida e plenamente consciente de seus objetivos. Laura Dern é a determinada e impulsiva Renata, personagem que poderia ter sido colocada como vilã, mas graças ao belíssimo roteiro e a atuação de Dern, torna-se uma mulher humanizada que faz de tudo para proteger a sua filha, por mais questionáveis que sejam as suas ações.

“Os adultos sempre se abraçam e se beijam após uma briga e fica tudo bem” diz Chloe Mackenzie (Darby Camp) à sua mãe Madeline, após ter estimulado seus colegas da escola a protagonizarem um feito semelhante.

Pois bem, o elenco mirim exerce um papel fundamental na trama e fazem isso com facilidade e muito carisma, sendo impossível não se apaixonar pela doçura de cada uma das crianças, que frequentemente são usadas como reflexos das personalidades de seus país, o que apenas enriquece as discussões com base na obra

A fotografia possui uma estética fria e intensa que muitas vezes varia entre um episódio e outro. Já quando entramos na questão dos planos, percebemos que não há uma grande versatilidade de enquadramentos, prevalecendo o uso de planos americanos ou inteiros para conseguir contemplar ao máximo os figurinos e os cenários luxuosos que são peças fundamentais na construção da identidade da série.

A direção de arte explora ao máximo toda a riqueza da comunidade de Monterey, assim como os figurinos lindíssimos das protagonistas. Há também um uso muito bem explorado das mansões que são enormes e deslumbrantes, estando quase sempre enquadradas com grande evidência em seu interior deixando as próprias personagens pequenas em relação a toda abundância ao redor, fazendo alusão também a seus conflitos que são expostos apenas durante a intimidade e a solidão.

Outro destaque digno de menção são as locações externas que são profundamente utilizadas pelo diretor, Jean-Marc Vallée. Desde o primeiro episódio até o último há uma linguagem desenvolvida evidenciando a praia e as ondas como uma metáfora para os conflitos de todos os personagens, é como se ali encarando a maré, todos encontrassem conforto, confiança e renovação emocional, deixando as lembranças ruins e os segredos serem levados pelo movimento das águas. Vallée também acerta na hora de conduzir o elenco, extraindo o melhor de todos os atores e principalmente trabalhando a química entre eles que é extremamente cativante quando se refere a amizade entre Madeline, Celeste e Jane, mas que é totalmente claustrofóbica quando coloca, por exemplo, Madeline junto de seu marido Ed, expondo as dificuldades que o casal encontra na hora de resgatar a paixão entre eles.

Antes de concluir temos que elogiar a lindíssima trilha sonora que é parte marcante da série, sendo que dificilmente a trama fluiria tão bem com a ausência dessas canções que fazem um misto de ritmos acrescentando uma atmosfera suave em contraste com os dramas conflituosos.

Big Little Lies começa de forma tímida, mas cresce juntamente da necessidade de dar voz a conflitos pouco representados na tv e no cinema. Temos aqui uma trama rica que lida com as dificuldades da maternidade, dos relacionamentos amorosos e profissionais e, acima de tudo sobre a importância da união e da empatia. É uma minissérie marcante em todos os seus sete capítulos, e digna de estar em uma lista entre as melhores.