“Blade Runner” é um clássico da ficção científica e logo quando foi anunciado que teria uma sequência os fãs se dividiram entre a ânsia de contemplar o retorno desse grande filme, e o medo de que a continuação comprometesse o material original e “manchasse” seu nome. Felizmente, o longa é muito mais que isso e consegue estabelecer boas conexões com a história criada em 1982, mas sem perder a sua originalidade.

K (Ryan Gosling) faz parte de uma nova série de replicantes, uma linhagem mais obediente e fiel aos humanos. Seu objetivo é servir a policia de Los Angeles e caçar outros replicantes que encontram-se foragidos. Em meio a isso, é descoberto a existência de uma suposta criança provinda de um replicante, algo que até então era impossível e poderá desencadear uma guerra entre humanos e androides, portanto K é imediatamente acionado no intuito de encontrar e destruir essa suposta criança, antes que seja tarde.

O roteiro é cuidadoso em desenvolver seus novos personagens e reinserir os antigos, a única dificuldade está em construir seu ritmo, passando por diversos momentos cansativos e excessivamente prolongados. Isso pode incomodar muito o público que não conheceu o filme anterior, mas dificilmente será um grande problema para os fãs.

Além de ritmo, o texto ainda conta com momentos extremamente expositivos que entregam o conteúdo com facilidade, sem permitir que o público faça suas próprias deduções. Por outro lado, o longa conta com diálogos excelentes e com um bom timing que auxiliam em nossa aproximação com os personagens.

Ryan Gosling foi escalado para viver ninguém menos que o personagem principal, e isso de certa forma dividiu as expectativas de muita gente, porém Ryan está impecável e entrega um dos trabalhos mais ousados de sua carreira, saindo completamente de sua zona de conforto e experimentando novas camadas e possibilidades que enriquecem muito a sua representação. Outro destaque é Robin Wright como a tenente Joshi, que como sempre rouba a cena em todas as suas aparições, assim como Sylvia Hoeks, que vive uma personagem enigmática e intrigante, dona de excelentes sequências de luta. Agora Harrison Ford é outro destaque fortíssimo, que mesmo anos depois ainda consegue reviver o personagem icônico, Rick Deckard, que rende ótimos momentos ao lado de Ryan.

Infelizmente, Jared Leto é mais uma vez vítima do marketing e dos trailers que abusam de sua imagem. O seu personagem está muito bem representado e tem um papel fundamental na história, porém deverá ser aprofundado apenas nas futuras sequências, sendo que aqui as suas aparições são muito pequenas e facilmente devem decepcionar os que esperam uma participação mais presente.

A direção de fotografia é deslumbrante e conta com uma enorme variedade de cores para representar cada um dos ambientes do filme, sempre com uma cor especifica predominando perante as outras, dependendo do local e de seu contexto na história. Com um amplo uso de planos abertos, a fotografia explora ao máximo todo o cenário futurista do filme, mas sabe a hora de voltar para os enquadramentos mais dramáticos e extrair os subtextos escondidos nos olhares e gestos de cada personagem.

A direção de arte também é outro ponto rico do longa, pois contamos com uma ambientação detalhista e extremamente fascinante acerca dos anos 2049. É um trabalho admirável e muito bem aproveitado pelo roteiro. Os figurinos são um pouco menos ousados, mas ainda conseguem destacar cada um dos personagens e os respectivos grupos que eles pertencem.

Denis Villeneuve retorna com mais um trabalho de altíssima qualidade, consolidando seu nome entre os grandes diretores da atualidade. Em “Blade Runner 2049” ele faz um bom uso de todas as suas técnicas de som e imersão, construindo uma atmosfera futurista e bela, mas que também é extremamente densa e caótica, recheada pelos sentimentos dúbios de seus personagens. Denis só peca na construção do ritmo do longa, que conta com muitas cenas pouco importantes e que estendem o material em um tamanho desnecessário. Definitivamente as quase três horas de filme não foram justificadas.

Podemos encerrar afirmando com convicção que “Blade Runner 2049” é uma das poucas sequências que consegue zelar pelo filme anterior e provavelmente irá agradar uma grande parcela dos fãs.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
8
Direção
8
Atuações
8
Direção de Fotografia
10
Direção de Arte
9
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Guilherme Soares

De São Paulo capital, fundador do Cine Mundo. Sou diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.