Boneco de Neve é um suspense adaptado de um livro extremamente elogiado pelos leitores, e que nos cinemas deveria seguir o mesmo caminho graças ao talentoso Michael Fassbender, e os indícios positivos apontados pelo trailer. No entanto, o que chegou aos cinemas brasileiros no dia 23 de novembro, é um filme genérico, e com diversos problemas em seu roteiro.

A história acompanha o detetive Harry Hole (Michael Fassbender) investigando uma série de assassinatos que começam a acontecer na cidade durante o auge do inverno. Como assinatura, o assassino sempre deixa um boneco de neve com o rosto virado para o local onde a vítima estava na hora de sua morte.

O roteiro é péssimo, mas o seu primeiro ato consegue prender a atenção do público. A sucessão dos acontecimentos, que por vezes soam aleatórios, instigam a nossa curiosidade por uma grande explicação que irá conectar tudo que até então parece desconexo. No entanto, essa conexão demora a chegar e a história torna-se demasiadamente cansativa e ainda entrega um desfecho que não consegue encaixar nem metade das pontas soltas deixadas ao longo da produção.

Na filmografia de David Lynch, por exemplo, temos ótimos suspenses marcados por sequências que jamais são explicadas de forma fácil e exigem uma maior reflexão após a exibição, como no brilhante Cidade dos Sonhos. Em outros casos, temos explicações mais explicitas, como no final do primeiro filme da franquia Jogos Mortais, que através de bons flashbacks, revela a origem do crime. Seja em uma linha mais complexa e velada como feito nas obras de Lynch, ou algo mais expositivo como no longa de James Wan, o ponto é que em Boneco de Neve não há nem complexidade, nem coerência em suas respostas.

O elenco tem bons nomes, mas nada disso é suficiente quando os personagens são extremamente mal desenvolvidos. Portanto todas as atuações são medianas e funcionam dentro do esperado, mas não há nenhum destaque positivo, pois passamos a maior parte do nosso tempo esperando por respostas que tornem coerentes cada uma das atitudes tomadas pelas pessoas envolvidos na história.

A fotografia é pouco inventiva e adota diversas convenções de gênero que funcionam em alguns momentos, mas em outros acabam colidindo com a inconsistência do texto. Planos psicológicos em um suspense são excelentes para tornar os personagens enigmáticos e suscitar a nossa curiosidade, mas quando isso bate de frente com o desenvolvimento raso da história, nada se sustenta.

A direção de arte também segue o mesmo caminho com pouca novidade, e quando toda essa superficialidade fica evidente, nada parece funcionar como deveria. Nem mesmo a trilha sonora consegue se sobrepor a lentidão da narrativa, uma vez que essa parece um recorte de outras trilhas usadas em diversos filmes do gênero, mas que aqui apenas serve de muleta para a produção fracassada.

A direção de Tomas Alfredson é o maior problema depois do roteiro. Se o texto foi adaptada de uma forma fragilizada e consequentemente abriu portas para um longa problemático, é o diretor quem deve tomar as rédeas da situação e definir a melhor forma de retratar a história, porém nada disso é transparecido aqui. Notamos uma clara falta de linguagem no trabalho de Tomas, seja na condução da trama ou no desenvolvimento dos personagens junto dos atores, nada aparenta ter um foco muito bem definido.

“Boneco de Neve” era um longa cheio de potencial, mas que no final acaba afundando em sua própria pretensão. Com um roteiro desastroso, cenas descontextualizadas e personagens de profundidade inexistente, o filme não consegue envolver o público, além de entregar uma conclusão pífia para o mistério apresentado.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
2
Direção
3
Atuações
5
Direção de Fotografia
4
Direção de Arte
4
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Guilherme Soares

De São Paulo capital, fundador do Cine Mundo. Sou diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.