Após tantos boatos sobre o universo de Círculo de Fogo, enfim foi lançado a sequência da produção de Guillermo Del Toro e, infelizmente, não foi da forma que esperávamos.

Para quem não se lembra, Círculo de Fogo foi um elogiado filme de Del Toro inspirado no gênero Kaiju e em animes de mechas que gerou uma aventura apocalítica de escala épica, na qual a humanidade era defendida por pessoas pilotando os robôs gigantes “Jaegers” que se confrontavam com os “Kaijus”, monstros enormes que emergiram através de uma fenda dimensional no Oceano Pacífico.

Crítica: Círculo de Fogo: A Revolta

A trama da sequência acompanha o rebelde Jacke Pentecost, um piloto de Jaeger que já foi promissor e cujo lendário pai deu sua vida para assegurar a vitória da humanidade contra os monstruosos Kaiju. Jake desde então abandonou seu treinamento para se envolver no submundo do crime. No entanto, quando uma ameaça ainda mais impossível aparece para destruir nossas cidades e levar o mundo aos joelhos, é dada a ele uma última chance para honrar o legado do pai, com a ajuda de sua irmã Mako Mori (Rinko Kikuchi), que lidera uma corajosa nova geração de pilotos que cresceram sob a sombra da guerra. A dupla procura justiça pelos que se foram e a única esperança é que eles se unam em uma revolta global contra as forças de extinção.

Jake é acompanhado pelo talentoso piloto Lambert (Scott Eastwood), e pela hacker de apenas 15 anos, Amara (Cailee Spaeny), enquanto os heróis do PPDC se tornam a família um do outro, eles se revoltam para se tornarem a principal força de defesa que a Terra já teve.

A sequência é cheia de problemas na estrutura e na técnica, mas um dos maiores está no roteiro de Derek Connolly, a trama demora a se desenvolver e perde muito tempo apresentando personagens e relembrando outros. A ação acaba surgindo apenas no terceiro ato que ainda conta com reviravoltas bizarras que podem desagradar alguns fãs da franquia que apreciavam a simplicidade e diversão do filme anterior.

O longa possui boas ideias a respeito da evolução do mundo e tenta adicionar camadas para sua mitologia, no entanto, faltou um melhor desenvolvimento para que isso conseguisse complementar esse universo de maneira substancial. Há, inclusive, um ponto onde pareciam seguir para um novo caminho mudando o conceito do que seriam os inimigos verdadeiros, mas terminam por desperdiçar tudo em prol de um plot twist que não faz muito sentido e acaba incomodando o público ao invés de surpreendê lo.

O elenco é o maior acerto e segura bem os defeitos do filme, com nomes como: John Boyega, Scott Eastwood, Rinko Kikuchi, Cailee Spaeny, Burn Gorman, Jing Tian, Charlie Day, Nick Tarabay, Adria Arjona, entre vários outros. Scott Eastwood faz Lambert, o típico rival do protagonista ao estilo Top Gun, cheio de talento e canastrão, mas no geral é parecido com muitos outros personagens de Eastwood, que passam um bom tempo criticando e antagonizando o “mocinho”.

Boyega vive Jake, um personagem muito carismático, malandro e de uma moral duvidosa, que carrega consigo o peso da sombra do pai. O ator ajuda a desenvolver à trama nos dando a perspectiva de alguém que não se importa com toda essa situação, além de possuir uma ótima química com Rinko Kikuchi e Cailee Spaeny.

Spaeny é um dos maiores acertos da produção, a atriz interpreta Amara, uma hacker de Jaegers divertida e esperta que acaba por mergulhar na violenta batalha pelo planeta, entretanto, falta material no roteiro para que ela desenvolva melhor a sua personagem.

Kikuchi retornou como Mako Mori junto de Charlie Day como Dr. Newton e Burn Gorman como Hermann Gorman mostrando uma boa evolução de seus arcos com grande destaque para Day e Gorman que mantém o bom entrosamento entre os cientistas e ainda trouxeram uma Mako sábia e experiente guiando Jake, Lambert e Amara.

A direção de fotografia decaiu bastante e, enquanto no outro filme eram usados tons sombrios e realçava cores e luzes ao lado de ângulos e enquadramentos que traziam a grandiosidade das batalhas, nessa sequência o visual é claramente colorido ao estilo “Transformers” e com ângulos e enquadramentos banais e padronizados demais para um filme dessa escala.

Crítica: Círculo de Fogo: A Revolta

Chegamos então a pavorosa direção de arte que, na primeira aventura, os heróis possuíam uma armadura sombria e pesada que trazia um primor visual digno, estética cyberpunk e uma tecnologia realista para a construção desse mundo, porém, as armaduras foram substitutas por uniformes coloridos que tem toda uma cara de cosplay de segunda linha, com robôs extremamente irreais e artificiais e um universo sci-fi padrão que já foi exaustivamente repetido em muitos outros filmes.

Steven S. DeKnight dirige o roteiro de Derek Connolly, DeKnight é famoso por contribuições em série de TV, como Spartacus e Buffy – A Caça-Vampiros, portanto parecia um potencial visionário para esse projeto, mas ele acaba deslizando no comando do filme, com elementos desorganizados, atuações que oscilam com frequência e cenas de ação confusas, que não correspondem ao estilo frenético e grandioso do primeiro longa.

Círculo de Fogo: A Revolta desperdiça todo seu imenso potencial ao entregar um filme raso, sem carisma e que nem ao menos diverte, desvirtuando a saga e seus personagens e demonstrando um desespero enorme em torna-la uma franquia de sucesso, abandonando o sentimento do primeiro filme e o trocando por várias ambições comerciais bizarras que terminam por afundar esse glorioso universo que merecia muito mais do que isso.


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