“Corra! (Get Out)” é um filme de terror lançado em fevereiro nos Estados Unidos e que tem dado o que falar. Agora no dia 18 de maio o longa finalmente chegará ao Brasil e nós já assistimos e preparamos esse texto para vocês.

A história acompanha Chris (Daniel Kaluuya), um jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada com quem está junto há cerca de 5 meses. Apesar de todas as justificativas dadas por Rose (Allison Williams), ele ainda tem receio de sofrer algum tipo de rejeição pelos pais da moça, que são todos brancos, e podem não aceitá-lo como deveriam.

Se você chegou aqui pela manchete provavelmente deve estar se perguntando o que esse filme de 2017, com uma trama tão diferente, poderia se assemelhar ao “O Bebê de Rosemary” de 1968, certo? Bom, é preciso esclarecer que como diretor, parte da sua função é desenvolver um documento de linguagem no qual deve conter toda a essência da história que você se propõe a contar, inclusive as referências que a sua equipe deve se basear. Dito isso os demais profissionais irão desenvolver seus respectivos projetos, acrescentando novas referências, além de suas próprias assinaturas, mas sempre mantendo o cerne da proposta dada pelo diretor, e é aqui que “Get Out” se mostra recheado de inspirações no trabalho de Roman Polanski.

Ambos os filmes constroem o terror envolta de uma tensão psicológica vivida por seus protagonistas, que facilmente criam um vínculo com o público e o faz questionar a veracidade do que está sendo mostrado. Estaria Rosemary enlouquecendo sobre a origem de seu filho?, enquanto Chris, estaria ele deixando seus conflitos pessoais se sobressair em relação a realidade? Ainda que com finais bem distintos, ambos os longas passam por um desenvolvimento parecido, embasados na sanidade dos personagens e desenvolvidos com um primoroso suspense e trilha sonora macabra.

Muito provavelmente a construção do vilão foi um dos fatores primordiais que fizeram com que o diretor viajasse até esse filme de 1968. Em “O bebê de Rosemary”, o maior mal enfrentado pela personagem de Mia Farrow, é o machismo da época, que a limita à um esteriótipo de gênero fortemente enraizado nos anos 60 – afinal, a mulher foi feita para servir ao marido, parir, e cuidar dos filhos (ironia on). Já em “Corra! (Get Out)”, acompanhamos um rapaz que teme ser represado pelos pais de sua namorada, e em determinado momento seus medos começam a ganhar forma e contornos em proporções ainda maiores do que ele podia imaginar.

Por fim até mesmo os arquétipos dos personagens são semelhantes, seja a namorada de Chris que tenta suavizar os questionamentos dele, ou o marido de Rosemary que a limita com os rótulos de “louca” (Gaslighting) e, se no filme de Polanski tínhamos os vizinhos enigmáticos, aqui em Get Out temos uma dupla de empregados da família que possuem um comportamento estranho e que intrigam o público do inicio ao fim do filme.

Mas agora vamos falar de sua fotografia que é recheada de planos dramáticos enfatizando o sofrimento e delírio do protagonista, tudo acompanhado de cores leves e revestido de um acabamento psicodélico que da charme e tensão a obra.

A maior parte do filme acontece na casa da família Armitage, portanto é ali que a direção de arte se dedica em maior parte, desenvolvendo um cenário grandioso e repleto de elementos que potencializam as características dos familiares, seja pelos diversos livros presentes, ou pelas fotografias que mais tarde ganham uma justificativa assustadora.

O elenco é formidável. Daniel Kaluuya interpreta o protagonista Chris que é extremamente carismático e consegue facilmente nos conectar com seus conflitos. Já Allison Williams (Rose) faz um acréscimo reconfortante no clima tenso do longa, enquanto Catherine KeenerBradley Whitford vivem Missy e Dean, os pais de Rose, que exprimem uma aura enigmática e jamais entregam as suas reais intenções, nos colocando para pensar durante todo o filme.

O roteiro é sutil e sem grandes exageros em suas reviravoltas e conclusões, isso é algo que garante boa parte do sucesso, afinal discutir questões como racismo ao mesmo tempo em que desenvolve uma atmosfera de terror não é tarefa fácil, e bastava alguns excessos em convenções de gênero e a mensagem estaria totalmente perdida. É interessante que Jordan Peele é responsável tanto pelo roteiro quanto pela direção, o que visivelmente influenciou nessa forma tão tênue com que ele desenvolve o projeto.

“Corra! (Get Out)” é sem sombras de dúvidas um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos e trouxe uma perfeita lição de empatia, recheada de tensão psicológica e reviravoltas realmente assustadoras, algo que irá agradar muito os fãs dessa estética tão rica e dificilmente bem executada. Corra! para os cinemas.