2017 vem sendo um dos melhores anos para o cinema brasileiro, com produções que impressionaram público e crítica, como “Bingo – O Rei das Manhãs” e “Como Nossos Pais”, assim como tivemos títulos que dividiram o público, como o caso de “O Rastro” e “O Filme da Minha Vida”, mas ainda assim temos alguns fracassos, como “Lino – Uma Aventura de Sete Vidas” e “Internet – O Filme”. De qualquer forma é perceptível que esse ano está sendo muito produtivo, com variedades para todos os gostos.

No meio disso é lançado “Entre Irmãs”, nova produção da Globo Filmes com direção de Breno Silveira, o mesmo responsável por “Gonzaga – De Pai para Filho” e pela série “1 Contra Todos” da Fox. Na trama, ambientada no sertão nordestino da década de 30, conhecemos a jornada das irmãs Luzia (Nanda Costa) e Emília (Marjorie Estiano), que são separadas, levando Luzia a trilhar um caminho difícil ao lado dos cangaceiros enquanto Emília descobre o mundo da alta sociedade na capital. Agora ambas deverão se afirmar e enfrentar problemas, como preconceito e machismo, presentes nos dois lados da sociedade.

O roteiro de Patrícia Andrade é baseado no livro “A Costureira e o Cangaceiro” de Pontes Peebles, e possui muito conteúdo e detalhes. Aqui conhecemos as diferenças e dificuldade de Luzia se adaptando ao mundo dos cangaceiros e suas motivações, assim como vemos tudo que Emília tem que aprender para ser aceita na capital. No entanto, o roteiro se perde em meio a tantos arcos que são criados, dando muita atenção para a subtrama de Degas (Rômulo Estrela), e a sua orientação sexual, além de muitas informações sobre os movimentos políticos crescentes da época, a relação de Lindalva (Letícia Colin) e sua parceria com Emília, além de algumas disputas de poder entre os cangaceiros. Todos esses núcleos acabam parecendo desconexos e tirando o foco do texto sobre família e empoderamento feminino, o que antes eram detalhes que enriqueciam o longa, tornam-se obstáculos para o desenvolvimento da história.

A relação entre Luzia e Carcará (Júlio Machado) é outra parte complicada, pois ela possui muitas facilidades narrativas que acabam emulando um estilo meio novelesco que não combina com o resto da produção. A relação até poderia ser mais interessante se houvesse um tempo maior para evoluir e crescer essa intimidade dos dois.

O roteiro sofre por ficar muito inchado e atropelar seus próprios arcos, o que o torna arrastado em alguns pontos, e o faz perder a coesão com o seu foco. Os diversos detalhes abordados aqui e ali tiram o equilíbrio da história. Talvez fosse melhor terem usado o material em um projeto de série, pois dessa forma teriam tempo para desenvolver todas as ideias.

Algo que não podemos reclamar é a direção de arte, que tem um olhar apurado para construir o mundo da década de 30, detalhando as casas e as ruas, construções e figurinos, tudo pensado muito bem para nos sentirmos imersos nessa época. Isso se aplica tanto nas cenas da elite da capital, como na realidade dos trabalhadores e cangaceiros do sertão.

A fotografia também está muito boa, usando no sertão aquele filtro já muito utilizado por filmes nacionais, mas que funciona bem na proposta, com tons de sépia e marrom em contraste com a forte luz do sol sempre presente. Já na capital, o contraste se mantém, mas existe um tom mais vívido, com cores que se destacam e dialogam muito com a visão deslumbrada de Emília acerca do local. Em ambos os casos existe um bom controle da câmera, trazendo planos gerais para mostrar todas as estruturas dos cenários e quando necessário utiliza-se closes para captar as fortes emoções.

O maior acerto é realmente o elenco, com Marjorie Estiano, Nanda Costa, Letícia Colin, Rômulo Estrela, entre outros.

No geral eles entonam bem o sotaque, dá para se ver a diferença no modo de falar de quem é do interior e de quem é da cidade, isso ajuda em muito o filme e suas questões de se adaptarem ao ambiente, seja no grupo de cangaceiro ou do contraste de Emília com as pessoas da capital.

Quem mais se destaca aqui é Estiano, uma garota sonhadora e dotada de muita sensibilidade e romantismo, difícil é não nos divertirmos e a apoiarmos em sua jornada para se estabelecer na capital, enquanto vive remoendo memórias da irmã. Nanda Costa também não faz feio ao incorporar uma personagem que representa o papel da mulher no sertão do nordeste, tendo que se impor em meio ao crescente machismo. Ela é forte, com convicções e persistente até o fim, fazendo tudo isso sem perder a sua feminilidade.

Rômulo Estrela como Degas, Letícia Colin como Lindalva e Júlio Machado como Carcará estão bons em seus papéis com performances que auxiliam a produção, entretanto foram bem prejudicados pelo roteiro que não soube bem como desenvolve-los.

A direção de Breno Silveira, impõe uma visão de desconstrução de época, seja ao nos mostrar a verdadeira nuance de um cangaceiro, que antes era visto apenas como uma caricatura repleta de testosterona, ou pela forma como tece algumas críticas para a vida na cidade grande. Além disso, o diretor faz um bom desenvolvimento das irmãs e capta mensagens profundas, tem deslizes no ritmo, mas ainda assim entrega um bom filme.

“Entre Irmãs” é um filme que em primeira instância nos parece ser sobre família e sobre a mulher se afirmar e impor o seu lugar no mundo dos anos 30, seja nos sertões como nas cidades, com belas atuações de Nanda Costa e Marjorie Estiano somos capazes de sentir tudo isso que o filme se propõe a ser. O problema está quando pequenos elementos na história acabam ganhando grandes proporções e o longa se perde em várias subtramas. Talvez se não tivessem mirado tão alto, esse seria um dos maiores filmes do ano e teria um resultado bem mais conciso e coerente, ou talvez fosse melhor terem usado essa estrutura para uma série de TV, lá sim teriam espaço suficiente para todos esses inúmeros arcos que quiseram trabalhar.