Here and Now era a nova aposta da HBO para seu horário nobre de domingo, um posto ocupado somente pelas mais inovadoras e populares produções do canal, algo que já faz com que caia um peso enorme sobre os ombros dessa nova série, pois ela está no horário que já foi exibido “Game of Thrones”, “The Sopranos”, “Westworld” entre muitas outras.

No geral é uma boa série, com uma produção admirável (afinal estamos falando da grande HBO, né?), ótimo elenco, além de uma proposta muito original, porém, ela falha em vários aspectos que podem afastar muito o público e termina não aproveitando todo o seu potencial.

Crítica: Here and Now

A trama é focada na família Bayer-Boatwrights, de Portland, no Oregon, são, aparentemente, um modelo de família multirracial progressista. Greg é um respeitado professor de filosofia e escritor; sua mulher, Audrey, é uma ex-terapeuta que se tornou mediadora de conflitos em escolas do ensino médio. Greg e Audrey têm três filhos adotados – Ashley, Duc e Ramon – e uma filha biológica, Kristen. Mas, durante os preparativos da festa de aniversário dos 60 anos de Greg, começam a vir à tona problemas profundos que os levam a reavaliar seu estilo de vida, o que inclui levar Ramon ao Dr. Farid Shokrani, um perturbado psiquiatra.

No geral parece haver um grande trabalho em debater muitos tabus sociais modernos como religião, supremacistas brancos, homossexualidade, depressão, violência em escolas, preconceito, mas em vários momentos fica claro que a série não possui o tempo necessário para se aprofundar em todos esses temas de uma só vez sem comprometer o desenvolvimento da trama principal, o que resulta em vários episódios arrastados, uma certa falta de coerência e muitas soluções rápidas e forçadas.

Apesar de tudo, em seus últimos episódios temos um ótimo desenvolvimento dos temas propostos, todos sendo trabalhados de maneira correta, gerando empatia e arrancando risadas e lágrimas de situações realistas ao mesmo tempo que encaminha e resolve as jornadas espirituais derivadas das estranhas visões que acompanharam a temporada.

A série é marcadas por incríveis performances ao lado de outras apenas boas, mas no geral, temos ótimas interações e que evoluem bem no decorrer da história, talvez sejam um pouco prejudicados pelo enredo, mas ainda assim sabem entregar um trabalho admirável.

Os maiores destaques são Raymond Lee e Jerrika Hinton, que através de personagens amplos e com muitas camadas nós compreendemos tanto a empreendedora Ashley, que lida diariamente com o problema do preconceito racial, como Lee que vive Duc, um coach que se denomina arquiteto emocional e busca a perfeição máxima em sua vida, mas esconde traumas profundos da infância.

Crítica: Here and Now

Ao lado deles temos Daniel Zovatto com Ramon, um programador de games homossexual, que caminha por várias situações que vão da calmaria ao desespero, até alcançar uma poética compreensão de si mesmo e do que há ao seu redor, sendo um dos personagens mais bem desenvolvidos da produção.

Em segundo plano temos Holly Hunter como uma mãe controladora e muito abusiva com a sua família, enquanto Tim Robbins equilibra uma desesperança e otimismo com frequentes reflexões filosóficas e sociológicas com fundo acadêmico e um tom presunçoso.

Ainda é preciso elogiar as atuações de Peter Macdissi como o Dr. Farid e Marwan Salama como Navid, ambos são deixados de lado no decorrer das múltiplas subtramas, mas são igualmente interessantes por trabalharem temas como gênero e religião de maneira bem delicada e sutil.

A direção de fotografia não trouxe nada muito fora do comum quando nos referimos a dramas familiares, com planos conjuntos dos personagens para desenvolvimento das relações e muitos closes para captar emoções contidas de cada um, contudo, há uma visível falta de ritmo entre as cenas, dando à série uma estética arrastada e por vezes cansativa.

A produção de arte está bem aceitável, a sua direção escolhe bons figurinos para cada personagem contextualizando com suas devidas personalidades e classes, como o jovem programador de games descontraído de roupas largadas; o professor de faculdade e escritor vestido socialmente todos os dias; a adolescente isolada e que se sente estranha perante à todos. Já os cenários aproveitam locais reais e criam toda essa relação com um mundo realista, o que facilita quando o roteiro caminha contestando os acontecimentos místicos e enigmáticos da trama.

A direção conteve altos e baixos ao longo de seus 10 episódios da primeira temporada, há um bom direcionamento dos atores e atrizes, quase sempre demonstrando grande talento de atuação, assim como souberam pontuar bem alguns momentos-chave, ao mesmo tempo faltou uma mão mais firme para que agilizasse certas ocasiões para que a série não ficasse tão arrastada, o que em determinado ponto se torna um dos maiores problemas da temporada.

Here and Now sofre de muitos excessos, tanto em seus núcleos e temas, como também de personagens, contudo, é uma incrível e profunda produção com atuações intensas e marcantes que busca a realidade e o místico em sua narrativa e proporciona um final poético e enigmático que não via na TV desde “The Leftovers”.


Trailer: