IT é uma das obras mais aclamadas de Stephen King e em 1990 ganhou uma adaptação televisiva que marcou a sua época e todas as crianças daquela geração. Tem quem defenda a minissérie e a considere um clássico, no entanto não há dúvidas de que “IT A Coisa” (2017) é infinitamente superior em todos os aspectos, batendo de frente com o livro e dando uma verdadeira aula de roteiro e direção.

Há diversos dilemas pertinentes na hora de adaptar uma obra tão marcante como essa, afinal temos adaptações que tentam a todo custo seguir o material de origem e caem em uma obra pouco autoral e desleixada, por outro lado, temos aqueles que agregam uma visão nova sobre a trama, e acabam não agradando a todos, como o caso de “O Iluminado”. No entanto, o que “IT – A Coisa” faz, vai além disso, ou melhor, fica no meio termo entre a fidelidade e as mudanças criativas, resultando em um belíssimo filme.

A história acompanha o “Clube dos Perdedores”, um grupo de crianças que acabam se juntando para sobreviver perante aos inúmeros maus-tratos que sofrem em casa e na escola. Além dos problemas concretos, elas ainda precisam lidar com o Pennywise, uma entidade que assume a forma mais conveniente para assustar suas vítimas e devorá-las.

Diferente do que sempre acompanhamos, nesse filme as crianças são o foco e apenas elas podem se defender. Não há adultos para salvá-las, e consequentemente, não há pudores em mostrar esses jovens sendo machucados e ficando cobertos de sangue, algo que a minissérie de 1990 não teve coragem de fazer, mas no livro sempre foi bem explícito. A violência portanto, é visceral e te deixará arrepiado logo na cena de abertura.

Nós sabemos muito bem que os pré adolescentes, principalmente no início da puberdade, passam longe de ter um vocabulário polido, mas isso é quase sempre mascarado por conta da censura, uma vez que boa parte dos filmes protagonizados por crianças costumam ter um público alvo da mesma faixa etária, portanto acabam sendo suavizados. No entanto, em “IT A Coisa” isso não acontece, logo há diversas falas e piadas envolvendo o tamanho do órgão sexual, ou a própria virgindade, que ainda são temas tabus para essa idade e acabam sempre possuindo uma conotação engraçada e constrangedora para o grupo de amigos.

Além dos diálogos engraçados que batem de frente com a tensão e rendem um excelente alivio cômico, o roteiro ainda acerta no desenvolvimento dos personagens e na condução da narrativa. Os jovens não se conhecem do nada, e tampouco ganham confiança uns nos outros da noite para o dia. Existem diversos momentos cruciais que o texto faz questão de desenvolver, seja uma simples brincadeira no rio, ou quando eles se unem para limpar o banheiro de Beverly (Sophia Lillis), ou até mesmo quando ganham força para enfrentarem os “valentões” da escola. Tudo é minunciosamente pensado e justificado, sem deixar pontas soltas ou dúvidas.

O elenco é outro ponto que dá força ao longa, pois todos são incríveis e entregam um trabalho de altíssimo nível. Não há zona de conforto, não há mensagem que fique perdida em sua comunicação visual. Tudo flui pela tensão das circunstâncias e a direção precisa que conseguiu extrair cada uma dessas ótimas performances.

Mesmo com todos entregando interpretações de alto nível, é Bill Skarsgård que rouba a cena, com um domínio espetacular de voz e corpo, dando vida ao temido Pennywise que transita do humor para o terror, carregado de referências e sons circenses. Além dele, Finn Wolfhard (“Stranger Things”) também está brilhante, carismático, e junto de Jack Dylan (“Tales of Halloween”) imprimem todo o teor cômico que eu citei acima.

Boas atuações são reflexo de uma ótima direção, e é isso que Andrés Muschietti faz nesse filme. O diretor obtém o melhor do elenco, não só em suas performances individuais, como também na química deles como um grupo. A história é muito mais sobre a amizade e os medos da vida, do que qualquer outra coisa, e trazer essa essência através da sintonia entre as crianças foi fundamental para o sucesso da produção.

A direção de fotografia é lindíssima e sabe desenvolver movimentos de câmera aguçados que são cruciais para o ritmo e tensão do filme. Close-ups no vilão, e no rosto assustado das vítimas são bastante frequentes e funcionais, assim como planos detalhes em objetos essenciais para a história, ou até mesmo nas garras do vilão, fazendo uma clara referência a franquia “A Hora do Pesadelo”. Além disso, tons acinzentados e cores desbotadas são predominantes no longa, deixando o clima sombrio sempre evidente, independentemente do horário.

A direção de arte é cuidadosa em desenvolver esse período de final dos anos 80, elaborando cenários característicos e rodeados de objetos e referências marcantes para a época, como o jogo “Street Fighter” em um fliperama, ou o poster da banda “New Kids on the block”, que inclusive é citada várias vezes ao longo do primeiro ato. Os figurinos e maquiagem cumprem suas funções com as crianças, trazendo autenticidade aos personagens, porém é na caracterização do Pennywise que os efeitos se superam. O “palhaço assassino” consegue ser assustador e ao mesmo tempo intrigante e engraçado, tudo graças a excelente identidade visual e o excepcional trabalho de Bill Skarsgård.

“IT – A Coisa” é um filme de terror assustador, mas além disso, é também uma lição de vida sobre a importância das amizades, sobre a força e o elo construído entre as pessoas que nós amamos, e sobre como a vida pode ser extremamente assustadora, e ao mesmo tempo repleta de momentos prazerosos ao lado de boas companhias. É acima de tudo, um exercício de empatia, e uma metáfora sobre os nossos medos internos que podem ser superados através de laços mais fortes. Diferente da versão de 1990, essa sim pode ser chamada de “Uma Obra-Prima do Medo”.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
10
Direção
10
Atuações
10
Direção de Fotografia
10
Direção de Arte
10
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.