A adolescência pode ser um período bem complicado, afinal é nessa época em que amadurecemos, os sentimentos se tornam mais intensos e descobrimos quem somos e quem queremos ser pelo resto de nossas vidas. No entanto, tudo isso pode ser ainda mais difícil quando você não é capaz de ter uma relação saudável com a sua família.

Todos esses temores, dúvidas e motivações foram muito bem explanados na comédia dramática “Lady Bird: A Hora de Voar”, produção que venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Cômico ou Musical e Melhor Atriz em Comédia ou Musical, além de ter sido indicado ao Oscar em várias categorias, como Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz.

E não é por menos que o filme vem sendo tão comentado e elogiado, afinal essa é uma obra delicada e crua sobre uma jovem não muito convencional e com uma personalidade mais forte que o normal, lutando constantemente com sua mãe para ter tudo aquilo que se acha merecedora.

A trama se situa em Sacramento, na Califórnia, o filme é um olhar sob as relações que nos moldam, as crenças que nos definem e a beleza ímpar de um lugar chamado lar. Transitando entre humor e emoção, o filme apresenta a relação turbulenta entre mãe e filha. Adolescente, Christine/Lady Bird (Saoirse Ronan) luta contra, mas é exatamente como sua mãe (Tracy Letts), uma enfermeira descontrolavelmente amável, profundamente teimosa e obstinada, que trabalha incansavelmente para manter sua família depois que o pai (Laurie Metcalf) perde o emprego.

O roteiro da produção flui muito bem ao contar essa trama cheia de nuances, trabalhando a transição entre a vida jovial e a maturidade do mundo adulto que aguarda Lady Bird.

Essa poderia ser mais uma obra de drama indie genérica que nós vemos sendo lançadas todo ano, mas a originalidade desse longa está na maneira como consegue equilibrar diálogos afiados, cheios de ironia e personalidade, com um certo tom de crueza e leveza da história, nos mostrando em detalhes, os profundos desejos de Lady Bird enquanto ela caminha por uma jornada pessoal repleta de experiências amorosas, companheirismo, conflitos familiares e a busca da sua própria identidade.

Vale ressaltar que um dos grandes focos do script está nas relações humanas que a Lady Bird desenvolve, como com suas amigas Jenna Walton (Odeya Rush) e Julie Steffans (Beanie Feldstein), seu romance com Kyle Scheible (Timothée Chalamet) e a ligação com o seu pai (Tracy Letts), cada uma dessas conexões revela traços humanos da protagonista, mas a relação que tem mais peso em sua jornada e nas escolhas feitas, está na maneira como ela convive com a sua mãe (Laurie Metcalf). Com ideologias e visões diferentes, as duas passam a maior parte do tempo em uma relação complexa e nem um pouco saudável, tudo isso de uma forma ou de outra direciona Lady Bird rumo ao seu futuro e sua transição entre a adolescência e a fase adulta.

Saiorse Ronan incorpora os tormentos e os egoísmos da personagem principal de uma maneira incrível, claro que esta não é o tipo de protagonista que você entende e aceita completamente, pois por quase todo o filme ela permanece no limite entre ser uma garota com suas próprias convicções e uma egocêntrica incorrigível, entretanto, Saiorse, com a sua bela atuação e seu carisma, consegue pontuar suas emoções fazendo aflorar amor, raiva e desespero na medida certa, tornando essa uma das melhores personagens do cinema dos últimos anos.

Outra atuação que merece destaque é Laurie Metcalf como a mãe de Christine/Lady Bird, uma mãe e esposa que faz o possível e impossível para manter o controle e a estabilidade de sua família, esforçada e dotada de uma forte personalidade ela, contudo, não sabe como lidar com os anseios e vontades da filha, se preocupando e buscando sempre guiá-la da melhor maneira, mas que no final acaba confrontando e discutindo diversas vezes com a jovem.

Isso tudo foi muito bem interpretado devido à grande química entre Metcalf e Ronan, na qual podemos acreditar na realidade crua de suas personagens que, apesar de se antagonizarem, ainda são capazes de sentir um afeto por baixo de toda a hostilidade que demonstram.

A direção de fotografia segue bem padronizada, com destaque para planos conjuntos dos personagens que ressaltam as relações humanas da trama, com momentos pontuais com ângulos criativos e ricos que criam mosaicos belíssimos com uma ótima disposição de elementos. Quanto às cores, temos tons de laranja e iluminação natural que juntamente com um bom uso da saturação e sombras ajudam a criar um ambiente característico que combina perfeita com o cenário de “Sacramento” e com a personalidade incandescente da protagonista.

A arte do filme realça vários pontos da arquitetura e dos ambientes simplórios da cidade, fazendo com que o público sinta e respire o “ar” que reside nesse local, tornando-o quase um personagem da trama devido à inúmeros detalhes. Em relação aos figurinos também foi feito um ótimo trabalho e as vestimentas apresentam muito do interior de cada um e ajudam a complementar os arcos dramáticos do longa pontuando muito bem os sentimentos, opiniões e desejos desses personagens.

É preciso elogiar a estreante diretora, Greta Gerwig, que antes havia trabalhado como atriz em Frances Ha e Para Roma com Amor. Aqui ela entrega um primeiro trabalho cheio de personalidade, delicadeza e ironia ao traçar o caminho de Lady Bird entre os desafios e as maravilhas da adolescência de uma jovem complexa e carismática que precisa fazer escolhas difíceis para seguir adiante.

Lady Bird: A Hora de Voar traz reflexões sobre a vida colegial, dramas familiares e os dilemas do início da vida adulta, mostrando uma obra refinada e bem desenvolvida que aos poucos nos sintoniza com o interior de uma garota controversa e sensível em uma busca por identidade e por sonhos no mundo moderno em que vivemos.