Concorrendo na categoria de melhor filme no Oscar 2017, Lion assim como Estrelas Além do Tempo e Cercas tem divido opiniões na comunidade cinéfila, pois de um lado defendem a obra como um dos melhores do ano e do outro a acusam alegando que sequer deveria estar entre os indicados.

O roteiro do longa nada mais é que uma adaptação da obra literária “A Long Way Home”, que retrata a vida do próprio autor que aos 5 anos de idade se perdeu em uma estação do metrô na Índia e só reencontrou sua família cerca de 25 anos depois do ocorrido. No longa a trama é dividida em duas partes, a primeira mostrando Saroo (Sunny Pawar) quando criança tentando reencontrar sua família, enquanto na segunda acompanhamos o protagonista adulto, agora interpretado por Dev Patel lidando com a sua família adotiva e as dúvidas sobre seu passado.

De cara percebe-se uma história interessante que ganha um charme a parte por ser baseada em um caso real e felizmente é bem adaptada apoiando-se em uma forte estética emotiva, mas sem grandes apelos dramáticos ou soluções fáceis em seus conflitos mais complexos. O único problema apresentado pelo roteiro está em partes do seu segundo ato quando começa a lidar com a relação de Saroo e sua nova família e posteriormente sua namorada que não agrega valor nenhum a obra e apenas ocupa tempo de exibição, quem acaba por salvar essa metade enrolada do filme é a belíssima atuação de Nicole Kidman como a mãe adotiva do garoto.

Em termos de atuações não é só a Nicole Kidman que entrega um trabalho inspirador, pois todo o elenco consegue manter um alto nível em suas performances. Dev Patel está convincente enfatizando as convicções de Saroo e sua sede por respostas sobre sua família biológica. Rooney Mara não tem grandes oportunidades graças a sua personagem deslocada pelo roteiro. Agora quem de fato agrega charme e conquista o público é Sunny Pawar dando vida a versão criança de Saroo, entregando um trabalho tão autêntico quanto o de Jacob Tremblay em “O Quarto de Jack” (2016), apesar de não ter tido uma repercussão tão grande quanto a desse outro.

A direção de Garth Davis é bem precisa e consegue conduzir muito bem o filme e seu elenco, tentando ao máximo suprir as lacunas do roteiro e se esforçando para manter um ritmo agradável durante todo o longa. Outro destaque está na mensagem transmitida, enfatizando acima de tudo, a relação materna que Saroo tem com as suas duas mães.

A direção de fotografia usa diversos close-ups para expelir o máximo de emoção das cenas, funcionando muito bem por atingir o impacto emotivo sem necessariamente exigir momentos catárticos e clichêtescos fortemente usados no gênero.

A arte consegue transitar com maestria entre as passagens temporais e principalmente as mudanças culturais que aqui são um divisor de águas da trama, afinal acompanhamos um garoto pobre que se perde e vai parar em outra cidade e posteriormente se muda para outro país tendo que se habituar a um novo código sociocultural. Mais do que isso, ao conhecermos o visual das pessoas reais que vivenciaram o ocorrido retratado notamos que são extremamente diferentes dos atores, mas acabam convencendo graças ao visual minunciosamente estudado pela equipe.

Por fim precisamos mencionar o excelente repertório sonoro que o filme nos traz. As canções são sutis e acompanham os conflitos do filme, com destaque a faixa original composta por ninguém menos que a Sia, dando um requinte a mais para o longa que infelizmente não terá grande reconhecimento nessa categoria graças ao seu fortíssimo concorrente, La La Land.

Lion não é um forte concorrente em nenhuma categoria pela qual foi indicado, mas merece o reconhecimento que vem recebendo afinal temos aqui uma obra autêntica e bem dirigida que traz sensações inspiradoras para todo o público.

 

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
7
Direção
8
Atuações
9
Direção de Fotografia
8
Direção de Arte
9
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.