“Sou uma mulher, não uma empregada. Tenho tanto valor quanto a Madame”

Madame de Amanda Sthers é uma daquelas obras que apesar de se enquadrar em comédia e romance, vai muito além das tradicionais produções desses gêneros ao explorar um assunto profundamente rico e muito debatido nos dias modernos. Falamos aqui da polêmica luta de classes e do valor dado a cada ser humano, para muitos, esse valor pode  ser facilmente diferenciado devido à sua postura e origem, entretanto, o filme está aqui justamente para nos perguntar: O que torna o rico e requintado e mais importante do que o pobre e humilde?

Esse debate é encaixado no desenrolar da produção de forma simples e fácil e é uma das maiores qualidades do filme ao conseguir criticar duramente nossa sociedade, mas de forma sucinta, ágil e inteligente, sem se perder em um discurso ou comprometer o desenvolvimento da trama e seu humor tão doce e divertido.

Crítica: Madame

Na história conhecemos Anne (Toni Collete) e Bob (Harvey Keitel), um casal rico que decide se mudar para Paris. Chegando lá, se apresentam à sociedade em um grande jantar. No entanto, a chegada de um convidado a mais faz com que a conta dos presentes seja igual a 13 – um número maldito pelo casal. Dessa forma, eles decidem arrumar a empregada da família como se fosse uma cidadã da alta sociedade parisiense para espantar o azar – mesmo que com isso, façam com que tudo dê errado por causa da atrapalhada mulher.

O roteiro utiliza o famoso formato do conto de fadas moderno, abordando o amor entre pessoas que vieram de lugares distantes, mas é bem executado com e evolui a cada cena, um mérito da escrita de Amanda Sthers e Matthew Robbins, sendo que, mesmo que já tenhamos visto situações semelhantes em outras produções, graças ao bom direcionamento dos diálogos, acabamos nos divertindo e torcendo muito pela personagem Maria (Rossy de Palma), que ganha todo foco da história a partir do momento que se transforma em uma socialite para evitar o azar do número “13”, pois no meio de toda essa confusão ela se apaixona por David (Michael Smiley), um negociador de arte que está averiguando uma obra que ele anseia vender rapidamente para se livrar de dívidas.

Apesar de tudo isso, existem certos elementos que acabaram atropelados e não foram bem trabalhados na história, especificamente as várias tentativas de elaborar subtramas que nada significam ao público. Há, por exemplo, um pequeno arco mal explorado sobre um romance entre Bob e sua professora de francês, assim como o desenvolvimento de Steven e, todo os altos e baixos da relação de Bob e Anne, que são jogados durante o desenrolar do filme.

O elenco está fluindo muito bem, sendo que o destaque fica por conta de Michael Smiley e Rossy de Palma, entre flertes e muito carisma a atuação de ambos nos conquista desde o início.

Rossy é Maria, uma mulher que vive em um conflito pois mesmo que respeite as decisões de Anne, ela acima de tudo é uma mulher humana que acredita em seu valor acima de qualquer divisão social imposta, ela é a nosso guia pelos absurdos desses ricos presunçosos e nos divertirmos e nos emocionamos conforme ela luta pela própria felicidade.

Crítica: Madame

Smiley é David, um excêntrico, sonhador e charmoso britânico, que impõe presença em cena, arranca risadas do público e compreende o respeito e o amor bem mais do que os demais personagens da história. A sua química com Maria está formidável, graças a sua personalidade inocente e, de certa maneira, pura.

A fotografia possui alguns planos interessantes para mostrar a grandiosidade do cenário da alta sociedade, além de aproveitar um pouco da beleza de Paris, contudo, no resto da produção não há grandes invenções, obedecendo as regras de comédias românticas com planos conjuntos e closes que auxiliam no timing cômico dos atores e na evolução do romance incomum entre Maria e David. Além disso, os tons de verde, azul e amarelo são muito bem equilibrados dentro de uma iluminação controlada, que ressalta o belo visual do filme.

A direção de arte é maravilhosa, desde os objetos de cena até os luxuosos vestidos usados pelo elenco, nos apresentando esse mundo e as diferenças entre as ‘madames’ e os seus empregados. Ademais, ainda são feitas escolhas muito condizentes com suas personalidades e isso é cada vez mais visível no decorrer da jornada de Maria.

Madame sofre pelo excesso de subtramas e algumas atuações razoáveis, no entanto, debate muito bem as tão faladas diferenças sociais entre o pobre e o rico, e faz isso de uma forma a complementar o divertido romance cômico entre Maria e David, dois personagens adoráveis e carismático que torcemos muito pelo seu amor.


Trailer:

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
7
Direção
7
Atuações
9
Direção de Arte
8
Direção de Fotografia
7
SHARE
Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.