A morte é talvez uma das grandes incógnitas da vida humana, afinal carecemos de respostas acerca desse momento e principalmente o que vem em seguida, e quando não temos nenhuma resposta, preenchemos essa lacuna com o medo. Há quem não pense muito sobre, ou simplesmente “aproveita o momento”, mas esse tema mais cedo ou mais tarde se torna recorrente em nossa vida. Acontece que o fato de que somos perenes, não cria um medo apenas para o nosso ego, mas também para as pessoas que nos cercam com seus afetos, pois a dor da perda é uma realidade irredutível na qual todos acabam conhecendo, até mais de uma vez. “Manchester a beira-mar” é o filme mais melancólico desse inicio de ano, e traz exatamente essa essência e insegurança de pessoas que tem de lidar com a morte de um ente querido.

O filme acompanha Lee Chandler, um homem impaciente, hostil e pessimista que trabalha em um prédio residencial na região de Boston. No entanto ao receber uma ligação notificando o falecimento de seu irmão, Lee tem que largar tudo e seguir viagem rumo a Manchester, local esse em que ele terá que aprender a lidar com seus sentimentos e ainda auxiliar seu sobrinho adolescente que se encontra desamparado. Melancolia é sem dúvidas o sentimento carregado em todas as cenas, com no máximo uma exceção, todo o longa é desenvolvido em um clima depreciativo e sensível.

A fotografia do filme é extremamente sinérgica a mensagem transmitida pela trama. Há um frequente aparecimento de planos médios dando abrangência a postura das personagens até em momentos simples, ajudando a expor suas inseguranças e conflitos internos. As cores oscilam entre o branco, azul e principalmente o cinza colaborando na construção climática da narrativa. Mais do que cor e enquadramentos, temos também um belo trabalho de iluminação que parece sempre priorizar o uso de fontes de luz inferiores como um abajur, deixando a maior parte das cenas internas com aspecto levemente escurecido carregado de sentimentos nefastos.

A direção de arte segue em parceria com a fotografia na manutenção dos tons e justificando a iluminação. O figurino exerce um trabalho ainda mais forte na hora de criar contrastes, pois os poucos personagens que não estão envolvidos no luto frequentemente aparecem vestindo cores mais vibrantes como vermelho e amarelo, enquanto o restante se mantém no preto, azul e cinza.

O elenco é um ponto forte do filme. Lucas Hedges está impecável no papel de Patrick, o jovem que tem de lidar com a morte do pai que o criava, sendo que sua mãe, embora ainda viva é totalmente desequilibrada e sofre sérios transtornos psicológicos. Michelle Williams tem uma presença menor em tela, mas consegue entregar um trabalho exemplar em todos os seus diálogos, representando com garra a traumatizada Randi. Agora o destaque de fato fica com Casey Affleck, que é o carro chefe do filme uma vez que tudo gira em torno de sua trajetória e como ele reage aos avanços das circunstancias dramáticas. Com poucas falas e uma performance no mais cru ação e reação, Casey encontra-se numa situação semelhante a de Amy Adams em Animais Noturnos, mas se difere em qualidade ao ser guiado por um diretor mais experiente, que resulta em um trabalho sensível e delicado de emoções sem nenhum exibicionismo excessivo e caricato.

A direção do longa fica por conta de Kenneth Lonergan, que também assina o roteiro. É notável sua experiência e sutileza com a qual conduz essa história que facilmente poderia ser repleta de momentos catárticos e apelativos, visando unicamente comover o público, mas longe disso. A trama aqui é bem orquestrada, repleta de tons fúnebres e penantes que deixam o expectador angustiado, sensível, e refletindo sobre a situação retratada de forma natural e extremamente humanizada sem se exceder na dose.

Parte da condução climática do filme também é mérito da trilha sonora que é recheada de sinfonias penosas, que nunca beiram ao extremo dramático, mas se mantêm polidas em realçar as situações de forma quase que assustadora.

Aos fãs de Six Feet Under e o belíssimo trabalho que Alan Ball (Beleza Americana) executou nessa aclamada série da HBO, não é difícil se familiarizar com a proposta de “Manchester à Beira-mar” já que ele traz uma mensagem bem parecida, até mesmo em seus tons e conduções, sendo talvez uma das melhores produções com essa temática desde a citada série de tv.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
9
Direção
10
Atuações
10
Direção de Fotografia
10
Direção de Arte
10
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.