Esse é um dos filme argentinos mais aguardados desse semestre, trazendo consigo a junção de dois gigantes do cinema, Ricardo DarínLeonardo Sbaraglia. O resultado não poderia ser outro, temos aqui um thriller intenso e angustiante.

A história acompanha a relação turbulenta entre dois irmãos, após o falecimento do pai. De um lado temos Salvador (Ricardo Darín), que vive em uma região isolada na Patagônia, buscando ficar distante da sociedade e lidar com seus traumas do passado. Do outro, acompanhamos Marcos (Leonardo Sbaraglia) e sua esposa Laura (Laia Costa) lidando com a parte burocrática do inventário e com as suas necessidades financeiras, que os fazem ir até Salvador tentar convencê-lo a vender a terra em que mora e partilhar o valor do terreno.

Esse é um filme que se consagra pelo elenco e, não se limita aos grandes nomes, Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia, afinal a espanhola, Laia Costa dá um show em sua performance, conseguindo encontrar o seu lugar em meio aos gigantes. Darín constrói um personagem totalmente apático e misterioso, é difícil se identificar com ele, mas é fácil se ver preso a narrativa que favorece o suspense em torno de sua figura. Leonardo interpreta Marcos, uma pessoa de caráter duvidoso que esconde segredos obscuros que são desvendados gradualmente ao longo do filme.

Mesmo que cada membro do elenco entregue um trabalho exemplar, o destaque mais notável está contido nas interações entre os três, momentos esses em que nós somos tomados belos belíssimos diálogos orgânicos e pela direção impecável, que constrói acima de tudo, um drama familiar, que funciona e instiga. No entanto, o maior destaque do roteiro está na maneira com que ele domina o desenvolvimento da narrativa, de tal forma que jamais permite que o filme fique cansativo ou repetitivo, sempre se renovando através de revelações chocantes que mudam totalmente o clima da obra e seguram a atenção do público.

A direção de fotografia sabe desenvolver um clima intimista e até certo ponto, claustrofóbico. As cores frias decorrentes da ambientação também auxiliam na atmosfera sombria da produção. É interessante notar que, embora o roteiro se adeque perfeitamente como um drama, são esses elementos artísticos que o desenvolvem e o classificam como um legitimo suspense.

A direção de arte sabe usar o cenário de inverno, tomado pelo branco da neve. A maioria dos personagens veste tons escuros e pesados, que geram contraste com a leveza da floresta, ou da própria neve. As vestimentas também são usadas na hora de caracterizar esses personagens tão distintos e complexos. Salvador vive isolado da sociedade e qualquer facilidade moderna promovida pela mesma, além disso ainda carrega um trauma obscuro, enquanto Marcos lida com os mesmos transtornos, mas os esconde por suas atitudes arrogantes e egoístas. Tudo isso é salientado tanto pelas atuações, como por seus figurinos.

A direção de Martin Hodara, é precisa e sabe trabalhar bem com cada um dos três atores principais, portanto em nenhum momento observamos um tomando o espaço do outro, e ao invés disso, notamos cada um se destacando e dominando a tela em perfeita sincronia. O diretor também foi o responsável por lapidar a estética do longa e para isso ele faz um bom uso dos efeitos sonoros e das próprias trilhas que criam um clima de ameaça constante, deixando o público ansioso pelo próximo acontecimento a ser revelado.

“Neve Negra” é um filme bem executado e que brinca com a percepção do público diante dos acontecimentos apresentados, e é através disso que cria-se uma atmosfera envolvente moldada por um intrigante drama familiar recheado de segredos e reviravoltas.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
8
Direção
8
Atuações
9
Direção de Fotografia
7
Direção de Arte
8
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.