[Crítica] O Exorcista – 1ª Temporada – FOX

 

Não é fácil carregar o fardo de beber da mesma fonte de um dos mais aclamados filmes de terror de todos os tempos, tampouco trazer em um formato de série algo que muitos filmes tentaram e falharam mesmo em menos de 90 minutos de reprodução. Aqui temos uma série ousada, que promete a nostalgia do clássico, conexões diretas e até uma premissa parecida.

A série acompanha uma família abalada por acontecimentos misteriosos. Angela (Geena Davis) suspeita de uma possessão e procura a ajuda de Tomas (Afonso Herrera), um padre jovem que tem diversos conflitos pessoais com a sua fé e um amor proibido. Agarrado aos argumentos apresentados, Tomas procura alguém mais experiente em exorcismos e com isso ele encontra o padre Marcus (Ben Daniels) que acabam juntos se propondo a salvar essa família.

Quando escrevi o texto de primeiras impressões baseadas apenas no piloto, confesso que estava afeiçoado pela rápida presença da trilha sonora do longa original que é introduzida ao término do episódio, aquele trabalho excepcional de som composto por Mike Oldfield e Steve Boeddeker, foi um dos pontos icônicos do longa de 1973 e sem dúvidas foi o braço direito na construção da atmosfera aterrorizante que o expectador compartilhou nas salas de cinema.

 

 

Aqui na série, isso é servido como degustação para os fãs, mas se quer chega a ser uma entrada muito menos um prato principal. Nos episódios que seguem, a série tenta construir sua própria melodia macabra, que a tira da zona de conforto e mostra criatividade, no entanto o produto entregue não é nem de longe do mesmo nível que o longa original, e acabamos tendo que aceitar que trilha sonora não sera um dos pontos condutores do terror aqui.

Despretensiosos acerca da trilha sonora, passamos a buscar um conforto nos personagens e nisso o elenco, roteiro e direção conseguem orquestrar um ótimo trabalho. Geena Davis embora promovida como o ícone principal da série, acaba sendo a que tem maiores dificuldades em transmitir carisma com a sua personagem apática, Angela, no entanto na reta final a atriz parece mais confortável com a proposta e consegue entregar uma performance satisfatória. O destaque total fica por conta dos padres Tomas e Marcus que gradativamente constroem um vínculo entre si, tornando a relação de amizade e cumplicidade crível ao fim da Season Finale, além da relação dos dois, o roteiro não esquece de apontar as dificuldades que ambos enfrentam ao buscarem um meio termo entre a fé e a razão, ou até mesmo o coração no caso de Tomas.

Casey (Hannah Kasulka) e Katherine (Brianne Howey) são as mais jovens do elenco e não ficam atrás. As duas constroem uma belíssima conexão como irmãs, sendo talvez as mais afetadas pelo transtorno que a família passa durante esses dez episódios. Os demais atores ainda que sem grandes contribuições conseguem transmitir o necessário para contribuir com os conflitos propostos.

A fotografia possui tons sombrios e quase sempre apelam para uma coloração acinzentada que traz um desconforto pontual a trama em questão.  Os movimentos de câmera não agregam nada de novo ou surpreendente, entregando apenas o básico.

A direção de arte aqui é promissora em diversas estâncias. A possessão é sem dúvidas um dos pontos mais delicados afinal sua degradação é aos poucos e é a maquiagem que deve conduzir esse processo, que nesse caso é visivelmente bem executado. O figurino também é bem colocado e caminha junto a trama refletindo os sentimentos de cada personagem em suas diversas nuances emocionais.

O roteiro por fim é o que tem maiores dificuldades em se impor entre referências e originalidade. A trama que poderia funcionar muito bem sendo concentrada apenas na vida dos padres e da família, acaba se expandindo em busca de justificativas grandiosas que trazem novos núcleos que mais se aproximam de “A profecia (1976)” do que de “O Exorcista”.  Parte da genialidade do filme de 1973 é justamente não se preocupar em trazer justificativas, sejam elas bíblicas ou cientificas, o fato está ali, acredite ou não, mas há uma família sofrendo e tendo que lidar com forças maiores e incompreensíveis.

Todo o núcleo conspiratório da igreja católica e a vinda do papa é raso e desnecessário, nenhum personagem que integra essa trama é bem construído ou minimamente interessante. A sua existência parece servir apenas para instigar uma suposta luta entre “bem e mal” e tecer pequenas justificativas acerca das possessões demoníacas, o que no final apenas torna alguns episódios cansativos.

A série O Exorcista não consegue se igualar em nada se comparar com o filme de 73, no entanto ela ainda oferece um material interessante aos fãs e seu saldo final é positivo. Com o núcleo da família Rance encerrado, resta para a segunda temporada apenas a trama de uma guerra iminente entre os demônios e a igreja, o que não torna essa renovação algo apetitoso.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
5
Direção
6
Atuações
7
Direção de Fotografia
7
Direção de Arte
8
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.