“Há sempre uma pequena verdade em uma grande lenda”

Esse está sendo um ótimo ano para animações, com filmes como “Viva – A Vida é uma Festa”, “Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas”, “Os Incríveis 2” e diante desses vários lançamentos não era esperado que ainda teríamos títulos impressionantes como “Pé Pequeno”, um longa que, embalado por cativantes músicas, nos conta uma história empolgante e divertida sobre os perigos do preconceito e a importância da empatia na sociedade. Tudo isso através de uma brilhante analogia que torna essa produção extremamente atual e necessária, tanto para as crianças como para os adultos.

Crítica: PéPequeno

Na história, um Yeti que vive em uma singela vila fica convencido de que as criaturas míticas conhecidas como “Pé Pequenos” (os humanos), não são apenas uma lenda de sua tribo e para sustentar seu argumento ele parte em busca de provas, afinal há sempre uma pequena verdade atrás de toda grande lenda.

O roteiro de Karey Kirkpatrick (“A Fuga das Galinhas”, “Os Sem-Florestas”) é bem pontual e apresenta um incrível desenvolvimento de Migo e o “Pé Pequeno” Percy Patterson, ambos têm suas convicções e objetivos transformados no decorrer da trama na medida em que a amizade entre eles é fortalecida de maneira poética e cômica. Apesar disso, o script acaba pendendo um pouco mais para o lado do Yeti, mesmo guardando algumas surpresas significativas para os atos de Percy.

Quanto ao seu deslumbrante universo, o filme soube muito bem como nos explicar um sobre a natureza dele, assim como nos revela sua cultura, política e religião e ainda busca fazer algumas curiosas analogias com preconceito, fanatismo religioso e estado laico. Essas são nuances percebidas mais por adultos do que por crianças, mas que ajudam a enriquecer a obra, tudo sempre equilibrado com lindas músicas que exploram variados temas e gêneros musicais.

A dublagem brasileira fez um belíssimo trabalho, pois se destacam tanto devido às boas performances em sintonia com o elenco original e o humor característico da produção, como também devido às ótimas adaptações de diversas músicas que conseguem traduzir para o nosso idioma, mas mantendo o conceito e o ritmo da versão original.

Outro ponto que torna essa animação tão memorável se encontra no design que busca um tom original e distante de estúdios famosos como Pixar e Dreamworks, trazendo um visual carismático e diferente que cria personagens cartunescos e os desenvolve dentro de um cenário grandioso e rico em detalhes dos Yetis, provocando um grande contraste com o lado dos humanos.

Crítica: PéPequeno

A fotografia ainda estabelece um visual interessante que traz muitas tonalidades de branco e cinza para o cenário gélido, contudo ainda há espaço pra explorar outras camadas como em cenas musicais psicodélicas e outras onde buscam por um forte contraste e o bom uso de vermelho. A direção aqui ainda sabe guiar a câmera de forma contemplativa e dinâmica, proporcionando uma gratificante viagem por esse universo, porém também sabe quando guardar os seus momentos mais intimistas com planos fechados em cenas dramáticas.

O diretor Karey Kirkpatrick direciona bem o roteiro rico em mitologia e seus carismáticos personagens, além de saber equilibrar vários elementos diferentes da trama ao lado das músicas divertidas e emocionantes, fazendo com que a produção nunca perca seu ritmo e encontrando os momentos certos para drama, humor e aventura.

“PéPequeno” é uma animação que pegou todos de surpresa logo quando muitos achavam que não teríamos nenhum outro título que poderia bater filmes tão bons como“Viva – A Vida É Uma Festa” ou que divertisse tanto como “Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas”, contudo a Warner nos entregou uma obra-prima do gênero que entrará para a história como uma das melhores animações dos anos 2000 e talvez até mesmo do cinema, e ela faz isso com o toque certo de sensibilidade, diversão e fantasia ao mesmo tempo em que soube inserir delicados assuntos de maneira tão consistentes na trama e palatáveis ao público infantil e adulto conquistando à todos com sua magia contagiante.


Trailer:

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
10
Direção
10
Atuações
10
Direção de Arte
8
Direção de Fotografia
9
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Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.