Na atual conjuntura do país, fazer um filme sobre a Lava Jato e a corrupção que perpassa por nós, vale a pena? Porque para isto, a obra precisa se atentar em mostra os fatos sem ser tendenciosa para nenhum partido político, ou seja, não pode favorecer e nem desfavorecer. Mas, em um país que escândalos de corrupção não param de ser noticiados, será que um filme é o suficiente para contar tudo o que aconteceu desde que começaram as investigações?

Todas essas questões ficavam pairando na minha cabeça antes de assistir ao filme “Polícia Federal – A lei é para todos” que se compromete a abordar os bastidores da Operação Lava Jato, através do ponto de vista do delegado Ivan (Antônio Calloni) e de sua equipe da Polícia Federal, em parceria com o Ministério Público Federal, expondo como foi possível desvendar o esquema de lavagem de dinheiro e pagamento de propinas a executivos da Petrobras, empreiteiras, partidos políticos e parlamentares.

É claro que a equipe mais forte é a da polícia federal, formada por Ivan Romano (Antônio Calloni), Beatriz (Flávia Alessandra), Júlio Cesar (Bruce Gomlevsky) e Ítalo Agneli (Rainer Cadete) sendo que todos esses apresentam atuações convincentes. Pedro Henrique (Leonardo Franco) é parte integrante do Ministério Público e este tipo de papel de “homem de negócios” esteve muito presente durante a sua carreira, portanto ele tira de letra.

Alguns políticos também são apresentados, como Alberto Youssef (Roberto Birindelli), o ex-diretor da Petrobras, e Paulo Roberto Costa (Roney Facchini), mas o destaque fica para a atuação de Ary Fontoura que faz o Lula, sem ser cômico, focando nos trejeitos do ex presidente. Por outro lado, Marcelo Odebrecht foi representado mais como uma imitação do que com o capricho de uma verdadeira interpretação. Já o ator Marcelo Serrado (Juiz Sérgio Moro) tem um número considerável de cenas, mas pouco se ouve sua voz, sendo representado essencialmente por suas ações.

É inegável que o filme acaba sendo tendencioso e enaltecendo a Polícia Federal, que são apresentados como uma equipe empenhada pela justiça. É uma história que deve ser contada, mas não nesse momento e não dessa forma, são muitas informações que caberiam em um seriado e quando as coisas ficassem melhor esclarecidas, afinal os esquemas de corrupção ainda não foram sanados, então ainda há muito o que se resolver.

O longa exagera por enaltecer demais a operação, além de retratarem a polícia federal como heróis, se apropriando de um modelo bem americano, mas que deixa a desejar. Também apresenta um conformismo e poucas mensagens de esperança, alegando que o Brasil sempre foi um país corrupto desde que foi invadido por Portugal, dando a ideia de que não há mais soluções.

O filme segue um bom caminho até a metade, mas se perde do meio para o fim, pois começa a apresentar um tratamento completamente desigual aos personagens, focando apenas em eventos que aconteceram com Lula e Dilma. Além disso, o orçamento milionário parece não ter sido investido em direção de arte e fotografia, pois o longa não tem nada fora do comum, possivelmente o dinheiro deve ter sido gasto em suas diversas locações.

A direção é de Marcelo Antunez, e o roteiro é escrito por Thomas StavrosGustavo Lipsztein, repleto de falas desnecessárias e que poderiam ter indagado questões reflexivas que colocassem o publico a pensar, como em “Tropa de Elite” (2007) que apresentou os fatos que são reais para quem vive na polícia, sem denegrir nenhum dos lados e com falas e interpretações muito coerentes, como as de Wagner Moura.

“Polícia Federal – A Lei é Para Todos” foi um filme com um dos maiores orçamentos já investidos no cinema nacional, e teve muito material para trabalhar, mas foi rodado no momento errado, além de apresentar um modelo muito Hollywoodiano e carecer de uma mensagem mais esperançosa, pois ao final a sensação que fica é de que seria cômico se não fosse real e tão trágico.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
3
Direção
4
Atuações
5
Direção de Fotografia
4
Direção de Arte
4
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Andreza Nunes
Nascida em Recife, jornalista por formação, adoro ensinar e trocar conhecimento. Acredito que o cinema é uma arte enriquecedora que pode promover reflexões, mudanças e propiciar a fuga da realidade.