“Você tem alguma ideia do que é ser uma adolescente e ter esta aparência?”

A Netflix está em uma ótima época com as suas comédias originais, românticas, açucaradas e divertidas, e diante disso decide lançar “Sierra Burgess é Uma Loser”, uma obra que consegue dialogar tanto com os nostálgicos pela geração “John Hughes” dos anos 80, como também toda a juventude atual imersa em seus smartphones e oprimidos por padrões de beleza exagerados e fora da realidade.

Crítica: Sierra Burgess é uma Loser

A trama cria uma versão moderna de Cyrano de Bergerac, acompanhando a vida de Sierra (Shannon Purser), uma adolescente inteligente e geek que não se encaixar nos padrões de beleza impostos no ensino médio e em nossa sociedade, contudo as coisas se complicam quando um incidente de confusão de identidade resulta em um romance inesperado em sua vida, fazendo com que ela precise se juntar com a garota mais popular da escola para poder ficar com o menino que gosta.

O roteiro é feito por Lindsey Beer e é perceptível as diversas referências aos clássicos de romance como “Gatinhas e Gatões” e “Garota de Rosa-Shocking”, está ali o formato semelhante da protagonista adolescente lidando com os questionamentos sobre seu presente e as expectativas para o futuro, enquanto vive uma história de amor calorosa contando com um amigo excêntrico e uma família carinhosa e simpática para enfrentar todos os seus problemas.

O texto de Beer é rico, ágil e emocional na medida certa para que o público se afeiçoe aos personagens e viva cada pequeno momento de Sierra, enquanto torce para que dê tudo certo em sua vida, mesmo que às vezes as decisões dela sejam bastante questionáveis. No entanto, é exatamente nesse ponto em que a trama ganha seus méritos, pois foge de estereótipos típicos de heroína e vilã e busca inserir um nível maior de humanidade nos protagonistas, ao mesmo tempo em que também debate temas como autoestima, os perigos da geração digital e como os padrões de beleza surreais são extremamente tóxicos para os jovens.

O único problema do texto está no último ato da história, que se torna um tanto apressando e confuso pois há uma certa pressa em concluir diversos arcos de personagens, o que resulta em alguns desfechos atropelados.

A pequena pérola do serviço streaming traz a nova queridinha dos nerds, Shannon Purser que participou de “Stranger Things” e “Riverdale”, e aqui vive a protagonista Sierra Burgess, com a sua melhor atuação até hoje, pois conforme o filme prossegue enxergamos cada vez mais camadas dramáticas da jovem, nos mostrando seus anseios, medos e desejos, mas também trazendo carisma, um ótimo timing cômico e boa química com RJ Cyler, Noah Centineo e Kristine Froseth.

RJ Cyler nos entrega uma atuação divertida e convincente, o ator já havia se destacado em “Power Rangers”, e aqui ele se mantém com carisma e humor, ajudando a aliviar as tensões  dramáticas do filme.

Crítica: Sierra Burgess é uma Loser

Noah Centineo, que também estrela outro filmes da Netflix – o aclamado “Para Todos Os Garotos que Já Amei”– interpreta Jamey, um atleta que foge de qualquer tipo de associação que pudéssemos ter em um filme desse gênero, doce, meigo e até um pouco tímido, traços marcantes que são revelados e gradativamente e cativam o público. A Verônica interpretada por Kristine Froseth é outra que também foge dos clichês de “mean girl” e traz, assim como Sierra, algumas dores, medos e inseguranças acerca de sua vida.

Claro que, para fechar, ainda temos a presença das lendas das comédias adolescentes oitentistas, Alan Ruck de “Curtindo a Vida Adoidado” e Lea Thompson de “De Volta Para o Futuro”, ambos exercendo os papéis de pai e mãe de Sierra e sendo tão agradáveis que nos fazem querer ter eles em nossas vidas.

A direção de fotografia trabalha com tons de rosa, verde e amarelo que ajudam, não só a nos conectar com o espírito da personagem e da trama, mas também a criar uma boa identidade visual semelhante aos filmes de John Hughes dos anos 80. Além disso, o uso de iluminação opaca nos auxilia a mergulhar ainda mais na humanidade presente nos elementos narrativos. E por fim, os ângulos e enquadramentos entregam muitas cenas conjuntas entre personagens e close’s bem encaixados, sempre prezando por uma boa edição e um ritmo dotado de fluidez que faz com que o filme se desenrole tão bem que nem sentimos o tempo passar.

A direção de arte utiliza cenários que trabalham bem com os diversos ambientes, desde a escola até as diferentes realidades sociais representadas através das casas, tanto de Sierra como de Veronica. Com relação aos figurinos eles também souberam desenvolver as características das roupas de cada personagem, de acordo com sua personalidade, o filme inclusive vai além com esse recurso e mostra que as aparências enganam, tornando as vestimentas um grande trunfo narrativo. Ainda assim, é preciso ressaltar um problema com as roupas de Sierra, que acabam por reforçar demais aquele estereótipo de como as garotas acima do peso se vestem de forma desleixada e caricata e vindo de um filme que trabalha tão bem a representatividade, isso acaba sendo um grave equívoco.

Crítica: Sierra Burgess é uma Loser

A direção do longa ficou a cargo de Ian Samuels que desenvolveu de forma excepcional a trama e cada um de seus protagonista, sabendo pontuar bem comentários críticos sobre os padrões da sociedade e equilibrar eles com a leveza do romance e humor da produção, além é claro, de extrair ótimas atuações de seu elenco.

Apesar de não ser perfeito e possuir alguns deslizes no decorrer da história, “Sierra Burgess é Uma Loser” é apaixonante, engraçado e até mesmo empolgante, exalando carisma e um certo espírito que só havíamos visto em clássicos de Hughes, mas que por baixo disso temos ainda conta com um brilhante subtexto sobre a juventude digital, bullying, autoestima e os padrões de beleza, mostrando que acima de qualquer coisa esse é um longa necessário para os dias atuais, uma produção que ficará na mente de muitas pessoas.


Trailer: