“Deixe o passado morrer. Mate, se você precisar. É o único jeito de se tornar o que você quer”

Essa frase simbólica dita por Kylo Ren (Adam Driver), possui seu significado dentro da trama, mas também pode resumir toda essa nova franquia, pois para se alcançar todo seu potencial é preciso se desvincular de seu passado, e se necessário, tomar decisões surpreendentes e drásticas para o legado da saga e assim caminhar com suas próprias pernas para o futuro.

Dando continuidade à saga vemos o que aconteceu com a Rey (Daisy Ridley) após entregar o sabre de luz para Luke Skywalker (Mark Hamill), e a partir daí a trama separa seu grupo de protagonistas em Rey e Luke; Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran); Poe Dameron (Oscar Isaac), Leia (Carrie Fisher) e Amilyn Holdo (Laura Dern); Lorde Snoke (Andy Serkis) e Kylo Ren, em uma clara inspiração em “Império Contra-Ataca”, cada qual ambientado em um momento de tensão e focados em fazer de tudo para vencer a batalha entre a Primeira Ordem e a Resistência.

Haverá comparações com o segundo capítulo da trilogia original, mas esse é menos cansativo que Império, mas tão sombrio quanto ou talvez até mais. Aqui existe muito mais bagagem emocional e muitas reviravoltas, com um bom controle de expectativa, sempre nos fazendo achar que a trama irá para um caminho e nos surpreendendo por diversas vezes, é como Luke diz em um determinado momento: “Isso não vai acontecer da maneira que você pensa”.

Essa é uma produção para lhe segurar na cadeira, pois a cada 15 minutos algo acontece para impressionar e arrepiar seu público, algo muito essencial em um filme longo desses que necessita disso para que não se perca o ritmo estabelecido do início ao fim da história.

Não há muito o que dizer sem entregar momentos chaves do longa, o enredo tem uma boa estrutura e guarda a ação para a abertura e o clímax, que liga uma sequência mais empolgante que a anterior de forma brilhante. Nunca foi visto algo tão bem controlado e equilibrado em nenhum outro filme da saga, com drama, grandes revelações, ação, aventura, e piadas inseridas no momento certo, é literalmente um épico da franquia.

Subtextos sobre o ambiente tenebroso da guerra ainda possuem seu tempo em tela, aprofundando ainda mais os personagens, e mesmo com tantos elementos obscuros, o filme consegue entregar um certo otimismo e esperança característicos desse universo criado por George Lucas.

Novos personagens como Rose e Holdo são inseridos de maneira simples e ganham tanta importância quanto Finn, Poe e Rey, eles têm seus arcos bem definidos e feitos sem enrolação e com muito carisma.

Ainda sobre os personagens, eles são bem interpretados pelo seu elenco, com nomes como: Laura Dern, Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy, Oscar Isaac, John Boyega e muitos outros que estão ali dando um show de atuação e cumprindo seus respectivos papeis na aventura.

Se no filme anterior tivemos o prazer de conhecer Daisy Ridley, na continuação vemos Adam Driver como Bem Solo/Kylo Ren ganhar todos os holofotes e todo o destaque merecido, esse é um ator revelação que ganhará a indústria após “Star Wars: Os Últimos Jedi”. Kylo Ren vive em conflito consigo mesmo, cheio de raiva, rancor, e um certo desequilíbrio emocional após a morte de Han Solo (Harrison Ford), no entanto, ele ainda expõe sentimentos como compaixão e sensibilidade de forma contida, mas evidente através de pequenos gestos e no tom de sua fala, ele é tudo o que Anakin da trilogia dos anos 2000 deveria ter sido, se Hayden Christensen tivesse o desempenho de Driver no papel.

Outro ponto importante são as mulheres, Carrie Fisher como General Leia mantém o pulso firme e suas esperanças, Kelly Marie Tran como Rose é graciosa e com um forte código moral, e Laura Dern como Holdo apresenta uma personalidade duvidosa e que sabe se impor com muita força em seus atos, por mais que nem todos concordem com ela. Claro que não podemos nos esquecer de Rey, vivida pela atriz que se revelou ao mundo, Daisy Ridley, ela evolui de diversas maneiras e traz cada vez mais humanidade ao arco de sua heroína, que inclusive desenvolve uma interessante relação com Kylo, mostrando grande química e pavimentando um caminho para o próximo longa.

A parte masculina também não faz feio, Mark Hamill tem uma das melhores atuações de toda a sua carreira ao trazer um Luke Skywalker renegado e sem esperanças para o futuro, mas que aos poucos, por baixo de tanta dor, ele aflora velhos sentimentos do jovem Luke, que todos conhecemos e adorávamos, ele ainda sabe encarnar uma figura de um mentor rígido para Rey, arco de grande importância, não só para “Star Wars: Os Últimos Jedi”, como também para toda essa nova trilogia.

John Boyega e Oscar Isaac mantém a evolução de suas jornadas e agora podemos aproveitar mais de Oscar como Dameron, impulsivo, forte, e aventureiro, ele se destaca em muitas cenas e as divide atuando de igual para igual com Laura Dern e Carrie Fisher. Já Boyega como Finn, desenvolve uma interação muito boa com Rose, além de mostrar que seu personagem cresceu muito, ganhando o espírito de um verdadeiro herói dotado de dignidade e honra, digno de fazer parte da Resistência.

Snoke, vivido por Andy Serkis, e General Hux, de Domnhall Gleeson, também ganham mais espaço no núcleo da Primeira Ordem, como figuras vilanescas que bebem nas fontes da franquia clássica e trazem ótimas situações para a produção. Ainda temos Benicio Del Toro como o malandro DJ, apesar de seu renome, ele não ofusca os outros e traz momentos divertidos para um dos arcos da produção.

Os efeitos estão mais uma vez deslumbrantes, seja pelas batalhas no espaço, pelas coreografias com sabres de luz, ou pela criação de novas e lindas criaturas. O universo aqui se expandiu e evolui colossalmente em relação ao “Despertar da Força” (2015), misturando mais uma vez os efeitos práticos com os acabamentos digitais na construção do visual, que por sinal, é maravilhosa, dando consistência e realismo ao filme.

A direção de arte é mais um ponto forte, com cenários diferentes e criativos, que explodem criativamente na tela, seja em um cassino espacial por onde a trama passa, no interior do Destroyer, ou no planeta de Luke Skywalker, com construções antigas que parecem inspiradas nos livros do universo expandido de Star Wars, e dessa forma, a riqueza de detalhes continua firme e forte nessa produção.

Com os figurinos também não há do que reclamar, seja pelo visual vermelho inspirado na cultura medieval e chinesa para os guardas de Snoke, a combinação sombria de Luke, ou o novo visual de Rey, que dá mais mobilidade para o combate, além é claro, da ótima sequência com os ricos que habitam o cassino. Fora os já vistos anteriormente da Primeira Ordem e da Resistência, mas que ainda ganham mais variedades nessa sequência.

A fotografia conta com uma bela direção que aposta em ângulos diferenciados, seja pelos inúmeros giros no espaço intercalados com diferentes pontos de vistas, como também por visões de cima e de baixo de vários momentos da ação, cortes suaves e continuando a usar a edição clássica de cenas, mas aqui em certos momentos eles são até bem ousados, criando novas transições que seguem o velho padrão, mas inovam dando uma nova cara para essa trilogia.

A direção ficou por conta de Rian Johnson (“Looper: Assassinos do Futuro”), que embarca nessa aventura épica e grandiosa com requinte, estilo, e seriedade, sendo que tudo que tornou essa franquia tão rentável e gloriosa está presente por todo o filme, como humor, aventura, ação e profundidade espiritual, mas o diretor fez mais do que isso, ele aponta para uma nova linguagem e evolui os elementos, da nova e antiga geração de heróis, em um filme que deve ganhar os coração dos fãs.

“Star Wars: Os Últimos Jedi” é um filme necessário para que esse universo não só retorne, mas também ganhe fôlego e inovação, cheio de eventos surpreendentes, carisma, tensão e complexidade. O longa coloca o caminho de Kylo e Rey em uma direção certeira, sem perder suas origens, mas criando todo um novo legado para a saga. Que venha logo o próximo capítulo.