Tully é aquele tipo de filme que emerge na programação dos cinemas de uma forma modesta e por conta de um ou outro fator você termina optando por assisti-lo. A surpresa, no entanto, é que o longa passa longe de ser “apenas mais um” e entrega uma poderosa história sobre maternidade, em especial, as primeiras semanas após o nascimento do bebê.

Crítica: Tully

Na trama, Marlo (Charlize Theron) está grávida de seu terceiro filho e precisa conciliar o período de gestação com os serviços da casa e ainda lidar com os seus outros dois filhos pré-adolescentes. Quando a criança finalmente nasce, as responsabilidades aumentam ainda mais e depois de muita relutância, ela concorda que é hora de contratar uma babá.

Assim como muitas mulheres, Marlo não gosta da ideia de ter uma “estranha” cuidando de seu filho e, muitas vezes, passando mais tempo com o bebê do que ela mesma. Porém, sem opções, ela acaba aceitando a proposta de seu irmão que sugeriu contratar uma babá noturna, que seria responsável pela criança somente durante a madrugada, enquanto o casal dorme.

A partir disso o filme começa a caminhar por diversos temas pertinentes. Mesmo não gostando da ideia de ter uma babá, Marlo acaba se apegando a Tully (Mackenzie Davis) e construindo uma verdadeira amizade com a sua ajudante. Por diversos momentos, é como se Tully suprisse a ausência paterna no lar, e não porque não há um pai na família, mas sim porque o mesmo se isenta das responsabilidades domésticas ou até mesmo dos cuidados com os filhos.

Essa problemática estrutura machista presente em diversas famílias é retratada pelo filme com muita delicadeza e sem qualquer exagero. O roteiro consegue criticar o perfil do pai ausente e que acredita que somente trabalhar e pagar as contas é o suficiente, enquanto a mãe, em muitos casos, além de também trabalhar, ainda precisa cumprir todas as atividades domésticas e referente aos filhos.

Crítica: Tully

Além disso, o longa carrega uma forte mensagem sobre escolhas, arrependimentos e o que seria a tão almejada felicidade. Marlo é uma mulher de classe média, casada e com filhos adoráveis, que optou por um estilo de vida mais tradicional e com estabilidade financeira, mas carrega consigo arrependimentos de não ter se arriscado mais e curtido a vida de uma forma mais autêntica e menos disciplinada. Já Tully, por outro lado, é apenas um pouco mais jovem que a sua patroa e tudo o que deseja é ter a oportunidade de mudar de vida e abandonar a sua rotina imprevisível, tendo uma estádia fixa e com alguém que ela ame e possa confiar.

Diante desse delicado conflito de ideais, Marlo e Tully vão criando uma forte conexão e parceria que funciona muito bem devido à química entre as atrizes envolvidas. Charlize Theron (Marlo) está, mais uma vez, em um papel desafiador e radiante. Novamente a atriz mostra que tem talento para caminhar em qualquer gênero e interpretar personagens completamente distintos. Já Mackenzie Davis, como Tully, é cativante e carrega um sorriso dotado de carisma e uma energia contagiante que circula em cena e reflete no público. Juntas, elas dominam o filme.

Ron Livingston e Mark Duplass e até mesmo os atores mirins, Asher Miles FallicaLia Frankland, possuem uma ou outra cena interessante na qual eles se destacam. No entanto, a essência do filme prevalece sendo feminina e focada na relação de Marlo e Tully.

Os figurinos e a maquiagem são alguns dos principais recursos usados pelo filme para contextualizar a atmosfera de estresse e cansaço que se alastra ao redor de Marlo conforme a situação em sua casa vai piorando. E tudo é feito com muito cuidado para que essa mensagem visual seja passada com maestria.

“Tully” é o tipo de filme feito especialmente para as mulheres, para as mães, as avós, e até mesmo aos homens, que vão acabar abrindo os olhos para diversas questões importantes e pertinentes a respeito da maternidade. Esse é um filme que cativa do início ao fim e muito disso vem do trabalho excepcional da protagonista, Charlize Theron.


Trailer: