“Vida” é um filme que pode ser resumido da seguinte forma: “Uma boa ideia com uma boa base, mas aplicada de forma sem empatia e sem desenvolvimento digno”. Dito isso, podemos começar a falar sobre os altos e baixos dessa produção.

Em seus trailers mesmo trazendo uma aura de “Interstellar” (2014) com um “Alien” (1979) genérico, ainda havia algo interessante que chamava a atenção de seu público. O conceito de “Alien” com todo o seu horror e tensão colocado de forma realista junto de uma relação entre os dois astronautas David Jordan (Jake Gyllenhaal) e Roy Adams (Ryan Reynolds), personificados aqui por grandes atores que vem ganhando elogios por seus últimos trabalhos, além de termos os roteiristas Paul Wernick e Rhett Reese de “Deadpool” (2015) por trás da história, apenas sustentaram a expectativa de render um material rico de referências e muita diversão.

Em sua história temos uma tripulação espacial envolvida no estudo de uma amostra de célula que pode ser a primeira prova de vida inteligente em Marte. Á medida em que estudam a célula, ela se mostra extremamente inteligente e aos poucos começa a influenciar cada um dos tripulantes. Agora é preciso correr contra o tempo para impedir que ela chegue ao planeta Terra e extermine toda a humanidade.

Infelizmente é aqui que está a maior parte dos erros, o roteiro erra em partes cruciais, primeiro na forma como não desenvolve bem seus personagens e os tenta resumir com no máximo 2 ou 3 linhas de diálogos para cada um, além de graves furos no terceiro ato onde é utilizado uma solução exagerada apenas porque já se haviam esgotado todas as outras opções. Fora isso, o longa possui um conceito curioso que brinca com a estrutura da franquia “Alien”, e é percebido que os roteiristas sabem escrever cenas de horror e ação, no entanto falta um complemento para nós sentirmos empatia e medo pelo destino dos heróis, além disso o script desperdiça Ryan Reynolds e a chance de trabalhar uma relação de amizade entre ele e Gyllenhal, por fim ainda há escolhas duvidosas que comprometem a história.

E quanto ao elenco? Bem é aí que surge outro grande problema, pois possuímos aqui um casting que é em sua maioria bem mediano, com atuações automáticas de Rebecca Ferguson, Ariyon Bakare e Olga Dihovichnaya, e destaque apenas ao carismático Reynolds como o divertido Roy Adams, mas que acaba muito desperdiçado, e também a forte presença e intensidade dramática de Gyllenhaal como o excêntrico David Jordan. Outro que ainda consegue mostrar ter muito potencial é Hiroyuki Sanada como Sho Murakami, mas também é mal explorado e nos impede de ver mais camadas dele como ator.

A direção aqui é uma das melhores coisas de “vida”, visto que falta substância e é um longa de orçamento limitado, mas percebe-se que ainda assim é um grande filme, pois consegue causar nojo e empolgação com as sequências de acontecimentos que vão surgindo, além de conseguir dar gás e agilidade pra cenas feitas fora da estação espacial. Daniel Espinosa se mostra um diretor que sabe o que arrancar de seu público e consegue extrair o máximo que tem do projeto.

Outro ponto forte está na área de seu visual pois alterna e mistura dois tons, o sci-fi realista com tons de cores luminosas e apáticas, e o terror fantástico com ambientes soturnos e cobertos de forte contraste dentro dos ambientes internos da estação. Há também um ótimo uso de enquadramentos e movimentos de câmera que conseguem dar ritmo e mexer com o nosso psicológico no decorrer das cenas, além de ser muito carregado de boas homenagens ao clássico de Ridley Scott.

Outro aspecto técnico bem trabalhado é o da arte, que se expõe aqui com figurinos bem pensados que nos dão o clima realista de uma estação espacial, além de criar bons e elaborados cenários que trazem a estrutura necessária do sci-fi/terror de tons realistas e fantásticos que é “Vida”.

Podemos concluir que “Vida”, acerta nas partes técnicas, entretanto falha no substancial do filme, o que o torna rico em seu exterior, mas vazio internamente, garante boa diversão, mas tornando-se esquecível. Apesar de trazer bons atores e um bom conceito, ainda há muito o que aprender com Ridley Scott e seu terror icônico.

REVIEW OVERVIEW
Roteiro
4
Direção
7
Atuações
4
Direção de Fotografia
7
Direção de Arte
7
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Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.