O Cinema rock’n roll dos Beatles

Antigamente, mais precisamente antes da globalização dos anos 90, era mais complicado ter acesso à informação. Pelo menos não tão “democrática” quanto é hoje. Era mais complexo distribuir informação pelo globo. Elas demoravam mais a se difundir e sofria um filtro da mídia “interesseira”. Não que isso não existia nos dias de hoje mas, anteriormente era mais pesado. Com essas dificuldades, era mais complexo ter acesso à informações sobre o seu artista favorito. Um dos que conseguiram dar um jeito nisso, e talvez um dos primeiros foram os Beatles.

Os Beatles tiveram uma carreira meteórica. Para a quantidade e diversidade de músicas que o fab four produziu, 10 anos, de 1960 até 1970, foi um tempo recorde. Nesse meio tempo, eles se aventuraram pelo mundo do cinema como uma forma de mostrar para o mundo qual era a cara e a personalidade de George Harryson, Paul McCartney, Ringo Starr e John Lennon em cinco filmes que são lembrados até hoje.

A Hard Day’s Night (1964)

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No Brasil lançado como Os Reis do ié, ié, ié, o filme mostrava como era a vida diária dos Beatles. Temos um esboço de suas personalidades, que seria a marca registrada de cada um pelo resto de suas carreiras. John Lennon sempre engraçadinho fazendo comentários muitas vezes sarcásticos, George Harrison mais sério e inclusive, em um determinado momento, critica a indústria de qual faz parte, Paul McCartney com pinta de elegante e conquistador e Ringo se sentindo excluído e como menor no grupo.

O filme também mostra a histeria que o grupo causava em seus fãs na época. Era o ápice da beatlemania. Inclusive, alguns takes do filme em que eles correm de seus fãs, foi realizado de verdade. A cena de abertura em que a banda chega à uma estação de trem, é uma cena real, são fãs de verdade. O filme também brinca com um sucesso recente do cinema na época. Em uma determinada cena, Ringo recebe um convite para ir à um cassino. Este é o mesmo em que o agente secreto frequenta em 007 Contra o Satânico Dr. No (1962).

Help! (1965)

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Em seu filme seguinte, a banda entra de cabeça no universo das referencias. Depois de apenas, esboçar um flerte com James Bond, agora eles entram de verdade no universo das aventuras. Na trama, uma seita precisa fazer um sacrifício para seu deus. O escolhido estaria portando um anel mágico. Então, eles descobrem através de um vídeo, que quem está portando este é o Beatle Ringo Starr. A partir disso, surgem altas aventuras da seita na tentativa de pegar o baterista para servir de oferenda.

A trilha do filme que não é cantada pelos Beatles lembra bastante a do agente secreto e eles ainda viajam para diversos países na tentativa de salvar seu amigo, coisa que é bastante comum nos filmes do espião. Além disso, na tentativa de tirar o anel do dedo de Ringo, eles testam tecnologias malucas, passagens secretas e ainda aparece uma espécie de Bond Girl, ou talvez Beatle Girl, que tenta ajuda-los em todo o filme.

Segundo os Beatles, na época de gravação do filme, eles estavam começando a experimentar maconha, por isso, existem algumas falas sem sentido no meio do filme.

Magical Mystery Tour (1967)
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Esse, para mim, é o filme mais estranho dos caras. A Viagem Mágica Misteriosa, é uma viagem de ônibus em que os passageiros são levados à lugares digamos, exóticos. Pronto. Esse é o enredo do filme. No início temos uma explicação do qual maravilhosa será a viagem. Todos embarcam e começa a acontecer uma porção de coisas malucas. Mais uma vez, como nos dois primeiros, temos o esboço da personalidade de cada um dos três. O que mais me chama mais a atenção nesse é um vislumbre do lado místico de George Harrison em um trecho que as pessoas entram numa tenda para ver sua apresentação da música, Blue Jay Way, em que ele toca um teclado desenhado no chão.

Na época, eles tinham perdido a pouco tempo o seu produtor George Martin, que era o responsável por controlar um pouco as confusões e brigas do grupo. Era alguém externo à banda que conseguia fazer as coisas andarem. Depois que ele morre, tudo fica meio descontrolado. Paul que tenta tomar o controle da situação e dá ideia do filme que é bem louco, mostrando um pouco a característica do grupo na época. Meio perdidos, tentando direcionar um pouco seus pensamentos.

P.S. Será que eles achavam essas máscaras “fofinhas” na época?

Yellow Submarine (1968)

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Quando eles extrapolaram toda a psicodelia que era possível no “mundo real”, eles partiram para o universo da animação. Ao invés de ônibus eles partem num submarino Amarelo para salvar uma terra dominada pelos malvados Blue Meanies. Eles são recrutados para devolver a alegria e a música para o mundo fantasioso, partindo em uma viagem incrível. Um filme de animação psicodélica que abusa das cores e de canções famosos da banda. O filme é tão louco e colorido que, em determinados momentos, ficava com medo de ter um ataque epilético. Acho que no início precisava ter um aviso para as pessoas que tinham esse tipo de problema. Sério.

Existe uma história que o filho de John Lennon, Sean Lennon, não sabia da fama do seu pai. Ele só descobriu quando, ao assistir o filme no cinema com sua babá, e seu pai aparece na tela. É um trecho logo no final, em que os Beatles aparecem de verdade no longa.

Let It Be (1970)

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Esse é meu filme / disco favorito dos caras. Feito para a TV, originalmente chamava-se “Get Back”, e mostrava os Beatles ensaiando e cantando suas novas músicas. É o único documentário considerado oficial que foi lançado. Antes de seu lançamento, seu nome foi, então, mudado para “Let It Be”. Marca o fim da carreira dos Bealtes.

Mais uma vez ideia de Paul, o filme era um projeto para mostrarem a volta dos Beatles, visto que eles tinham ficado um tempo sem fazerem apresentações ao vivo. Seria um documentário, um novo álbum e uma turnê da volta dos quatro. Porém, o filme se tornou na verdade um documentário sobre: por que os Beatles terminaram. Nele vemos a que pé estava a relação dos quatro. Paul tentava ser uma espécie de líder da banda tentando trazer todos para o projeto (que em alguns momentos, fica bem autoritário); George parece estar desgastado com a situação toda (aliás, ele era o único que não gostava da época da Beatlemania), e meio nervoso com Paul; John se diverte com Yoko pelo estúdio meio que não ligando pro que está acontecendo e Ringo sendo o Ringo, em algum canto do estúdio só sendo simpático. Ah, e é neste documentário que temos a última apresentação do grupo no alto do prédio de sua gravadora.

Até hoje, as pessoas ainda se questionam o por que os Beatles acabaram. Quando me questionam isso, eu respondo que não foi apenas uma situação isolada. Primeiro foi a pressão imensa dos estúdios querendo mais e mais dos quatro. Depois, temos a famosa disputa de egos entre Paul e John que percorreu toda história da banda. A banda perder o seu quinto membro, o produtor George Martin, que sempre arranjava um jeito de contornar as situações de stress falece e deixa o grupo meio perdido. Paul tenta tomar essa vaga mas, acaba sufocando seus amigos. E Yoko, muitos dizem que ela foi a causa do grupo ter terminado, foi apenas mais um item agregado à situação. Tá certo que ela algumas vezes tentou ser o quinto elemento do grupo mas, na real, John Lennon quem preferiu viver a vida a dois do que com o grupo. Mas ai, já é minha opinião de fã.

Bonus

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Esses são os filmes oficiais e produzidos na época em que os Beatles ainda estavam juntos. Mas, quero citar mais um filme que é tão interessante quanto esses quarto, o documentário Nossa Querida Freda – A Secretária dos Beatles. Acompanhamos a história de Freda Kelly que acompanhou os quatro desde quando tocavam em pubs de Londres até o fim da banda. Ela foi responsável por criar e alimentar o único fã clube oficial da banda e até conheceu os familiares dos quatro. É interessante que temos uma visão de alguém que observou a história acontecer de uma distância segura que permitia saber separar o que é verdade do que é lenda.

Existe uma cena interessante de Let it Be em que John Lennon narra uma cena do filme Os Reis do ié ié ié em que eles vão embora de helicóptero. Ele fala toda a cena e comenta “Aquilo não tinha nada a ver com a gente”. Isso mostra de que forma as imagens e movimento podem nos enganar. Como cada um era de verdade nós nunca saberemos. A impressão que tínhamos e temos de cada um dos quatro pode ser bem diferente do que eles são de verdade. Em uma das entrevistas que George Harrison concede após o fim do grupo ele comenta algo do tipo: “a minha personalidade como Beatle é como uma roupa antiga que não me serve mais”. Quem eram de verdade esses quatro? Talvez nunca saberemos mas, nem por isso deixa de ser divertido especular.