O legado de “Carrie, A Estranha” de Brian de Palma

No ano de 1976 o consagrado livro “Carrie, A Estranha” era adaptado para os cinemas por Brian De Palma transformando a obra de Stephen King em um filme memorável que rendeu duas indicações ao Oscar, além de ter ganhado US$ 33 milhões nas bilheterias, como se nada disso tivesse bastado ele ainda haveria de ser debatido por anos e anos e geraria outros três filmes, consolidado como uma forte franquia do gênero de terror.

A grande questão aqui é como ele alcançou esse patamar, afinal o que foi preciso ser feito por De Palma e sua equipe para que o legado de “Carrie, A Estranha” houvesse tanto significado para o cinema?

Sabemos que na época de seu lançamento o filme foi criticado pelo excesso de violência, entretanto há muito mais do que isso, Brian De Palma construiu aqui uma produção que explora ao máximo o material de origem do livro de King que apresentava muito potencial a ser trabalhado e expandido, Palma enxergava tudo isso em sua leitura e desenvolve um longa que divide seu tempo em três núcleos, um focado no âmbito do fanatismo religioso e perturbado, outro no da jovem descobrindo seus poderes sobrenaturais e por último na dinâmica escolar e no que o incessante bullying pode causar na mente e no comportamento de Carrie.

Se paramos para analisar o filme ele está a criticar e se aprofundar muito mais em questões psicológicas dos comportamentos humanos do que nos perigos das habilidades dela, e isso se faz através de um trabalho conjunto da fotografia com o diretor de uma maneira destruidora ao filmar tudo de forma grandiosa e cheia de simbolismo de modo intenso, que ainda conta com muitas cenas bem elaboradas da demonstração da força de Carrie que criam e evoluem um clima de tensão até os grandes momentos do seu clímax, caracterizados com grandes efeitos e maquiagem que denotam o espírito de terror da obra.

Mas não é apenas nessa parte técnica que o filme se sobressai, muito do sucesso vem das atuações de Sissy Spacek como a tímida Carrie White e de Piper Laurie como sua mãe fanática Margaret White, que além de ter agradado muito o público conquistou as críticas ganhando indicações ao Oscar e Globo de Ouro, entre outros vários prêmios.

Fora é claro, seu roteiro com todas essas implicações da trama, variando entre a realidade do bullying da escola, o sobrenatural de Carrie e a religiosidade deturpada de Margaret White. Esse filme mais do que entreter nos faz um grande alerta sobre a opressão dos jovens, a realidade do período escolar, a intolerância religiosa e as consequências de nossos atos egoístas.

“Carrie, A Estranha” se consolidou assim, não só como uma obra prima do terror, como também um dos grandes clássicos do cinema, o que acabou gerando diversas continuações e remakes, mas lembremos que tudo começou graças a visão de Palma e à riqueza escondida no romance de Stephen King e acredito que cedo ou tarde ainda veremos essa mesma história dar origem a mais um filme em algum momento, afinal não se pode ignorar o potencial dessa franquia iniciada por Brian De Palma.

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Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.