Syd Field descreve um roteiro de filme com base em três atos, sendo que no primeiro o autor deve buscar apresentar as personagens e as suas motivações. Em uma série parte dessa tarefa deve ser feita no episódio piloto e no caso American Horor Story nunca fez isso muito bem, na maioria das vezes jogava uma série de personagens na cara do telespectador e deixava o resto de forma subjetiva para ser trabalhado geralmente nos dois próximos episódios. Em Hotel essa estética muda, e o que temos é um piloto dentro do que se espera e nunca havia sido feito.

Não foi só no roteiro que essa temporada começou diferente, mas na própria escalação dos atores e seus respectivos personagens tivemos mudanças que não passaram despercebidas. Perdemos Jessica Lange como a protagonista, e ganhamos a Lady Gaga que simplesmente teve sua estreia nessa temporada. Como protagonista masculino tivemos dois nomes que fizeram apenas participações especiais na última temporada, Matt Bomer dando vida a Donovan o “amante” da Condessa (Lady Gaga) e Wes Bentley interpretando John Lowe, o mocinho da história. Até mesmo Chloë Sevigny (a ninfomaníaca de Asylum) volta como Alex Lowell, a esposa de John . Já Sarah Paulson deixou de ser a “mocinha” e tornou-se Sally, uma personagem menos relevante, mas ainda assim com uma proposta bem diferente do que veio antes. Evan Peters que ainda não apareceu, já foi anunciado como um cara mal, totalmente distinto dos jovens depressivos que ele vinha interpretando anteriormente.

A opinião popular foi bem dividida quanto a essa premiere, houve aqueles que amaram assim como eu, e outros que não gostaram. Dos que não gostaram há uma certa persistência no argumento de não ter compreendido o conflito que essa temporada pretende abordar. Já alguns outros, até mesmo críticos americanos se queixam da reutilização da temática dos “fantasmas físicos” que foram o foco da primeira história, “Murder House”. Na minha visão como roteirista, a última coisa que Hotel errou foi nesse ponto, e portanto, convido vocês a destrinchar esse primeiro episódio junto comigo, então vamos lá.

 

Introdução

Até aqui nada muito diferente das temporadas anteriores, sempre uma cena chocante que antecipa a abertura sinistra. As cobaias responsáveis por nos introduzir nesse mundo são duas turistas suecas que se hospedam no Hotel e descobrem uma criatura horrenda presa no colchão, mais tarde já em outro quarto e sem muitos recursos para sair do local uma delas é atacada pelas crianças vampiras, e posteriormente Iris prende ambas em jaulas separadas afim de alimenta-las até atingirem um nível apetitoso para futuramente terem seu sangue drenado pela Condessa. Acontece que Sally liberta uma delas provavelmente afim de despertar a ira de Iris, mas para infelicidade da jovem sueca ela se depara com a vampira que corta sua garganta no estilo Fiona Goode. A outra garota continua presa.

 

Plot Principal

O plot principal gira em torno de um pai de família, chamado John Lowe (Wes Bentley) que pelo que entendemos tem um casamento conturbado desde que seu filho sumiu há 5 anos. A relação do casal é um tanto fria, em uma das cenas a esposa sai de casa sem nem se despedir com um beijo ou demonstração de carinho. O caso atual que ele investiga envolve um assassino que após torturar as vítimas, recontroi a cena do crime inspirada em um dos 7 pecados capitais, semelhante ao filme Seven. O mesmo psicopata vem ameaçando John e de uma certa forma todos ao seu redor. Após uma cilada do maníaco, o nosso mocinho acaba indo parar em uma cena de crime junto com a filha que presencia um feito traumática. Depois desse infeliz ocorrido o casal tem uma briga e o policial resolve sair de casa por um tempo afim de investigar o assassino que diz estar no Hotel e também se desligar dos afazeres do matrimônio para talvez assim manter sua família segura.

 

Casal

 

Em todo momento a série faz questão de enfatizar o quão esforçado John é, tentando sempre estar presente na vida da filha evitando deixar o trabalho ocupar mais tempo do que já ocupa. Sua filha tem traumas quando lembra da figura de seu irmão e graças a forma com que ele desapareceu ela acaba criando um certo receio de celulares e repreende o pai na primeira tentativa de cutucar o aparelho enquanto ambos jantam em um tradicional fast food de comida japonesa.

 

Celular

 

Ainda que o nosso mocinho não saiba, o seu filho está no hotel Cortez e agora é uma das crias da vampira Rainha. Imagino que logo ele irá encontrar o filho e terá um novo motivo para permanecer no local.

 

A Condessa

A “Vilã” até então é apresentada como uma mulher extremamente poderosa (não muito diferente das personagens da Lange) porem com um ponto peculiar, bem diferente do que vimos anteriormente, trata-se de uma vampira! Sim, isso mesmo e na mais clássica estética das criaturas sexuais que marcaram os anos 90 pelas histórias da Anne Rice. É nesse ponto que eu particularmente não imagino alguém melhor do que Gaga para interpretar tal personagem. Parece que Ryan fez a personagem sob medida. Até onde a série aborda ela já está no Hotel a um bom tempo e atualmente é a dona do estabelecimento. O que sabemos é que diferente dos vampiros clássicos ela não precisa morder a vítima, até porque parece que ela não tem presas desenvolvidas como as criaturas mais convencionais, no lugar disso ela usa sua luva com unhas pontiagudas para rasgar o pescoço das presas. Ao Lado dela temos Donovan, que mais tarde descobrimos ser filho de Iris. A Condessa por algum motivo sequestra crianças e as mantem presas no Hotel, mas não de uma forma cruel, longe disso, os pequenos possuem um salão repleto de jogos e doces só para eles. As intenções dela com eles não ficam claras, mas vamos esperar para descobrir.

 

Crianças

 

É de imaginar que Ryan mude muita coisa em relação a mitologia clássica de um vampiro. O que sabemos até agora é que eles não se queimam no sol, até porque quando a corretora abre a janela Donovan apenas reclama, mas não desperta nenhum tipo de repressão física. Como já dito antes eles não tem presas desenvolvidas e aparentemente possuem o poder de sedução ou “manipulação” já que tanto na cena do cinema ao ar livre, como quando o comprador aparece há uma forte persistência da câmera em focar no jogo de olhares.

 

Iris e Sally

Iris é a recepcionista que logo de cara demonstra ter uma relação conturbada com Sally, um dos pontos fortes do piloto foi explicar essa relação sem muita enrolação. Iris é mãe de Donovan que alguns anos atrás se envolveu com Sally buscando algum tipo de alivio com as drogas que a garota oferecia. Sally o leva até seu quarto no Hotel e o droga com uma dose além do que o coitado podia suportar. Iris movida por vingança arremessa a viciada pela janela do prédio e a mesma fica presa no local como um fantasma, semelhante a mitologia criada em Murder House. Já Donovan é encontrado pela Condessa que sugere de forma subjetiva transformar ele em um vampiro para impedir a sua morte, sendo assim Iris teria o filho vivo e a vampira ganharia um excelente companheiro. A conclusão dessa tragédia é que Iris torna-se a nova recepcionista do Hotel, para assim poder ficar próxima de seu filho, porem também tem que conviver com o fantasma amargurado de Sally.

 

Donovan

 

O Assassino

A criatura icônica dessa vez é chamada pelos produtores de “demônio do vicio” ele é representado como um monstro horrendo sem faces que possui uma cone pontiagudo de metal no lugar do pênis. Ainda não sabemos se ele tem alguma relação com a Sally.

O segundo assassino é o novo “bloody face” ninguém sabem quem é, nem se quer vimos a cara dele, tão pouco sabemos se ele tem alguma relação com o demônio do vicio, já que ele meio que previu o assassinato que ocorreu no Hotel. Mas até aqui ele é uma figura enigmática, fortemente baseada no serial Killer do filme Seven de David Fincher. Será que é o Kevin Spacey? 😮

 

Outros

Liz Taylor é uma das personagens que quase não foi comentada, o pouco que sabemos é que ela trabalhava na recepção do Hotel antes de Iris assumir, talvez ela tenha morrido e ficado presa no local ou apenas deixado a função nas mãos da outra, quanto a isso nada foi discutido ainda. Já Will Drake (Cheyenne Jackson) “o comprador” aparece nos minutos finais negociando a possível compra do estabelecimento, que provavelmente vai gerar muito assunto para os episódios seguintes.

Outro personagem interessante que aparece é a corretora, a mesma de Murder House, logo na sua primeira cena ela já faz questão de refrescar nossa memória contando que teve que se livrar do cachorro herdado dos Harmon.

 

Corretora

 

Hotel is the new Murder House?

Sabemos desde o ano passado que as temporadas estavam interligas e de uma certa forma é logico pensar que em um universo fantasioso como esse certas coisas já abordadas antes podem perfeitamente existirem simultaneamente. No caso dos fantasmas foi dito no final da primeira temporada que lugares antigos, com um longo histórico de tragédias acabam ganhando vida própria tal como prisões e hospícios. No caso do Hotel Cortez não é diferente. Em Murder House tudo foi focado em contar a história daquela casa e quem contava eram os fantasmas que ali habitavam. Desde que Hotel não faça o mesmo, os seus fantasmas apenas confirmam o que foi explicado anteriormente “eles existem e habitam locais que possuem um passado marcado por tragédias”.

É cedo e até mesmo pretensioso criticar com esse argumento, e tomando como base a premiere o enredo deve seguir um caminho bem diferente, mas infelizmente é perfeitamente possível que os autores cometerem alguns erros (sempre comentem) e essa “maldição da mesmice” acabe se concretizando.

No geral essa estreia foi excelente. Os plots foram bem amarrados, personagens apresentados com sucesso. Foi longe de ser uma estreia espetacular se comparar com outras séries, mas dentro do universo de American Horror Story esse foi sem sombra de duvidas o melhor incio de temporada.

Não foi só na estreia que essa temporada superou as anteriores, a abertura também é fenomenal e assustadora.

 

 

Bom, não vou dizer que espero que essa seja a melhor temporada, pois nas outras duas ultimas vezes que eu disse isso acebei me decepcionando. O que posso dizer é que essa estreia já valeu por muita coisa e estarei escrevendo as reviews tradicionais semana que vem. Comentem com a opinião de vocês 🙂

 

REVIEW OVERVIEW
Nota:
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.