Eu já estava cansado das adaptações clássicas dos quadrinhos que dificilmente conseguiam se desvincular dos clichês. No cinema alguns conseguiram uma boa execução, a trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan em especial conseguiu até inovar dentro desse contexto. Já na televisão, o gênero vem se propagando na mesma proporção, mas sem grandes avanços, seguindo a clássica estrutura de “O Vilão da semana”, famosa nos anos 90, mas não tão amada pelos mais criteriosos. Tudo é levemente superficial, com conflitos primordiais para adolescentes, mas pouco envolventes para os mais crescidinhos. Aqueles que são fãs dos quadrinhos podem até acabarem atraídos não pela qualidade propriamente, mas pela única representação do seu herói favorito disponível no mercado ou simplesmente um entretenimento momentâneo. Como esse não é meu caso, acabei me afastando dessas adaptações e por sua vez não botando fé na parceria entre a Marvel e a Netflix, e bom… quebrei a cara, e foram duas vezes.

O primeiro tapa na cara se chama “Demolidor” que gerou um grande impacto dentro do gênero “Heróis”. A sua narrativa densa e sangrenta nos fez conhecer os personagens e sentir seus medos e anseios, nos fez compartilhar de nossas angustias para com a deles. Ainda que busquemos por uma referência nos cinemas a mais próximas seria a criada por Nolan, pois bem, isso foi Demolidor. Uma série adulta de ação, com lutas memoráveis e um roteiro exemplar, além de uma fotografia sombria para servir de fundo para toda essa façanha.

 

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Jessica Jones é diferente. Se imaginarmos algo próximo de Demolidor protagonizado por uma mulher, chegaríamos em uma versão mais sombria de Buffy The Vampire Slayer. Mas o que temos aqui é uma história dramática por seus três atos, cobertos por um verniz sutil de suspense e terror psicológico. Ação? Isso fica por conta das produções anteriores. Aqui é trabalhado algo que se não fosse pela presença do selo “Marvel” poderia ser perfeitamente vendida como uma série independente narrando a trajetória de uma órfã problemática que luta para superar seus traumas e evitar repetir seus erros. Não acompanhamos a jornada de uma heroína e sim de um ser humano dotado de uma força abrupta. A característica marcante aqui é justamente o que nos torna quem somos, seres essencialmente movidos por emoções e que ora tombamos para o bem, ora para o mal, mas como dizia Nietzsche, precisamos ir além dessa dicotomia. E é com essa perspectiva que podemos conhecer os personagens dessa série, que em momento algum fez questão de construir um lado essencialmente definido portanto vai além dessa barreira.

Jones, nossa protagonista não tem grandes poderes ou treinamento. Ela é apenas uma moça com uma super força capaz de dar grandes saltos. Nas poucas e curtas cenas de ação, a coreografia faz questão de ser simplista e focada no que seria uma briga de rua, sem grandes movimentos. Para aqueles que esperam um lindo conflito de artes marciais como em Demolidor, podem até se decepcionar nesse ponto, outros por sua vez podem enxergar como uma nova experiência.

O teor “Girl Power” é outro ponto marcante já que é algo que muitos expectadores esperavam e a série entrega com excito. Munida de mulheres fortes e determinadas, Jessica Jones, consegue trazer mais esse artefato a sua produção. Até mesmo a melhor amiga de Jessica consegue se defender dos inimigos, quebrando o paradigma clichê, em que na maioria das vezes conta com a donzela em perigo, quase sempre sendo salva pelo mocinho e tornando-se um fardo para o mesmo.

Outro tema tratado com delicadeza é questão do casal homossexual inserido no contexto de forma sutil e natural, não que a produção ignore o preconceito existente na sociedade, mas ao invés de resumir a vida de um casal de mulheres a apenas “lutar contra a violência” a série opta por trabalha-las na intimidade mostrando os problemas dentro do matrimonio, ou ocasionado pelo fim dele.

 

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E por fim mas não menos importante está a atuação impecável de todos os integrantes desse elenco. Krysten Ritter que vivenciou uma das cenas mais trágicas de Breaking Bad, e inclusive chegou a protagonizar a série Don’t Trust the B—- in Apartment 23 está impecável no papel, trazendo uma série de falsetes clássicos de seus outros personagens, para assim construir a nossa Jessica Jones. Como o grande vilão Killgrave, temos David Tennant dando vida a essa magnifica figura psicótica que nos faz amar e odiar. Os outros atores não são ofuscados por esses grandes talentos e também conseguem dar conta do serviço, com personagens orgânicos e bem construídos o que nos leva a elogiar o trabalho de Melissa Rosenberg a grande showrunner por trás da série.

Jessica Jones é para você que gosta de se envolver, e esbanjar dos prazeres gerados pela imersão do audiovisual. É para você que é fãs da série de quadrinhos ALIAS. É para você que está cansado das produções do gênero e disse que jamais daria espaço para algo do tipo em sua grade de séries.

Obs: Como de costume irei assistir a série mais uma vez para só então fazer a Analise aprofundada de todos os pontos altos e baixos e como sempre será no formato de programa postado no nosso canal no Youtube, portanto inscrevam-se: https://www.youtube.com/channel/UCRVBg_uIP_mJi4jqnfm2wbQ

 

 

REVIEW OVERVIEW
Nota:
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Guilherme Soares
Criador e editor da Cine Mundo, diretor, roteirista e crítico de cinema. Viciado em séries, com um carinho especial pela eterna Six Feet Under e Buffy The Vampire Slayer.