[Resenha] Cloud Atlas

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Sei que filmes derivados de livros geram discussões e acho que por isso mesmo sou normalmente adepta a assistir primeiro o filme e se gostar, passar ao livro. Assim não me decepciono e sinto que completei um quebra cabeça impossível de ser assimilado somente pela versão cinematográfica, acho que a verdade é que as pessoas se esquecem que o livro vai muito além, permite que vejamos o que se passa na cabeça do personagem, coisa que no cinema fica subentendida.

Por isso, comecei a ler o romance Cloud Atlas (Atlas das Nuvens), confesso que o filme me fascina, mas o considerava complexo a ponto de querer me aprofundar, além da curiosidade gerada pelas críticas do filme. No livro, o alcance da história é ainda mais avassalador, David Mitchell não coloca limites de linguagem, de gênero literário, de personagens ou mesmo de tempo e brilhantemente traz uma reflexão sobre a ânsia da humanidade pelo poder e até onde ela pode nos levar. Além da passagem temporal e as diferenças geográficas, o livro traz ainda diferentes gêneros literários em cada capítulo.

O livro começa em 1850, no Pacífico, com Adam Ewing, um advogado enviado pela família para negociar a comprar de novos escravos e que acaba sendo salvo por um deles. Passando para 1930, o jovem e talentoso compositor Robert Frobisher tenta se encontrar e reorganizar sua vida enquanto tenta ajudar o compositor, já idoso, Vyvyan Ars. Avançando para 1970, a jornalista Luisa Rey conhece Rufus Sixmith, quando o elevador em que ambos estão quebra. Ela irá descobrir que Sixmith guarda grandes segredos, quando ele a procura para revelar uma série de falhas no projeto de construção de um reator nuclear, do qual participa. Nos dias atuais, Timothy Cavendish é dono de uma pequena editora, que lançou um livro que dificilmente dará retorno financeiro. Entretanto, a situação muda quando o autor do livro mata um de seus críticos, tornando-se uma celebridade instantânea. Coreia do Sul, a Nova Seul do futuro, Sonmi-451 é um clone que trabalha em um restaurante fast food, programada para realizar todo dia as mesmas tarefas, sem reclamar, até que outro clone acaba, sem querer, despertando-a sobre sua existência. Numa realidade pós-apocalíptica Nova Seul foi tragada pelas águas, Zachry, o líder de uma tribo que venera Sonmi, vê sua vida mudar quando Meronym, que integra um grupo evoluído, lhe pede para viver com sua tribo, juntos eles serão ameaçados por uma tribo mercenária cujo único objetivo é a extinção total da raça humana, todos os personagens principais são narradores de Cloud Atlas. Seis histórias que, apesar de ocorrerem em épocas e países distintos, possuem uma interligação. Todas elas, com exceção da última, são interrompidas no meio e retomadas mais à frente no livro, pela ordem inversa. O livro termina onde começou, com Adam Ewing.

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Atlas das Nuvens é um livro de difícil leitura, que exige tempo. É complexo e rico em detalhes, mas com toda a certeza é um livro que merece ser lido, parece uma compilação de 6 novelas, tal é a perícia do autor em distinguir as vozes das suas personagens. Todas as histórias estão extremamente bem escritas, o que é ainda mais notável por se tratarem de pessoas e épocas tão diferentes. Mas o que torna este livro mais do que a soma das suas partes são as ligações sutis entre as histórias e os temas semelhantes que as percorrem. De maneira engenhosa, o autor interrompe cada história num momento crucial e avança no tempo, fazendo o leitor perceber aos poucos as conexões entre as narrativas.

O primeiro romance de David Mitchell, Ghost Written (1999) ganhou o prémio Mail on Sunday, John Llewellyn Rhys e foi finalista do First Book Award do Guardian. O segundo romance, Number Dream (2001) figurou na lista de finalistas para o Booker Prize e para o James Tait Black Memorial Prize. Em 2003, Mitchell foi eleito pela revista Granta um dos Melhores Jovens Romancistas Britânicos. Atlas das Nuvens (2004), é o terceiro romance e foi um dos finalistas do Booker Prize do mesmo ano; em 2005 recebeu o Literary Fiction Award e o Richard & Judy Best Read of the Year dos British Book Awards. Black Swan Green (2006) é o seu mais recente romance.

Antes de ingressar na leitura desse livro, te adianto que encontrará dificuldades para encontrá-lo, o livro só foi traduzido para o português de Portugal, apesar de algumas editoras brasileiras terem prometido uma tradução. A versão em inglês pode ser facilmente encontrada.

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Juliana Schmidt
Sou do tipo que chora em filmes, séries e livros, por isso mesmo me considero uma apaixonada. Reparo em coisas que pouca gente presta atenção como figurinos, cenários e trilhas sonoras.