Resenha: Como Falar Com Garotas em Festas

Aproveitando o momento do lançamento do filme “How to Talk to Girls at Parties”, produção que adaptará o quadrinho feito por Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá, “Como Falar com Garotas em Festas”, conferimos a obra original e passaremos nossas impressões dessa bela história criada por esses talentosos quadrinistas.

Na Londres dos anos 70 acompanhamos o desajustado, Enn, e seu amigo conquistador, Vic, em uma noite que são convidados para uma festa, onde ambos conhecem as misteriosas, lindas e estranhas garotas Stella, Wain e Triolet. Conforme a conversa com elas prossegue eles podem se deparar com o fato delas serem muito mais do que simples garotas humanas buscando se divertir em uma festa.

A publicação adapta um conto de Neil Gaiman que faz parte de sua elogiada compilação de contos, “Coisas Frágeis”. Aqui os personagens e seu universo fantástico ganham forma pelas mãos dos brasileiros gêmeos, Gabriel Bá e Fábio Moon. Confesso que conhecia apenas o trabalho de Gaiman por livros como o próprio “Coisas Frágeis”, “Oceano no Fim do Caminho” e “Deuses Americanos”, quanto à Moon e Bá eu apenas havia assistido ao curta-metragem baseado em uma história deles, “Mesa para Dois”, e lá já pude ver um pouco do estilo pessoal sobre relações humanas, maturidade e os desafios e maravilhas do cotidiano comum.

Foi uma boa escolha ter eles na tarefa de adaptar para quadrinhos a trama de Neil Gaiman, pois o material de origem dialoga muito forte com a linguagem dos quadrinistas.

A HQ conta com uma paleta de cores rica em elementos gráficos que colidem umas nas outras em um lindo painel que expressa o mundo e as sensações da noite de Vic e Enn, resultando em um visual quase psicodélico e, de certa forma, real. Assim como a história, o visual está no limite entre a fantasia e a realidade, um mosaico brilhante de formas onde o real e o surreal vivem em harmonia pelas páginas da obra.

Conforme a festa ocorre, Enn e Vic, aos poucos descobrem cada vez mais da natureza excêntrica das garotas, mais uma característica tipica de Neil Gaiman, com seres fantásticos que vivem entre nós e nem sempre compreendemos totalmente o mundo ao nosso redor e seus inúmeros mistérios. Esse é o charme e a força do escritor, seu controle e abordagem no mistério e fantasia é capaz de conduzir o leitor de forma que nós realmente não nos importamos de termos ou não respostas para os acontecimentos.

No entanto, um público habituado com o gênero de ficção científica pode sacar algumas pistas através das confissões de Stella, Waine Triolet, mas é aí que entra outro grande artificio do quadrinho acerca o desenvolvimento das relações humanas e transformação dos personagens. O atrapalhado Enn parece encontrar química com as mulheres e superar seus bloqueios, enquanto Vic perde sua confiança diante da realidade delas que lhe é apresentada.

A cada diálogo, os mistérios são desconstruídos e a conversa se torna cada vez mais prazerosa, confesso que essa história cresce exponencialmente de maneira absurda, seja pelo visual, arcos dos personagens e muito mais, tudo isso nos faz querer que ela não acabe, você quer ficar nessa festa junto de Enn e Vic por todo o o tempo do mundo, mas assim como os personagens, o leitor captura as mesmas sensações dos garotos ao se deparar com um final abrupto onde é preciso seguir em frente, mas de certa forma percebe-se que nada mais será o mesmo depois dessa noite.

Enn e Vic o levarão consigo durante a vida, e todos que lerem essa obra acabarão por também carregá-la por muito tempo na mente e no coração. Esperemos que o filme “How to Talk to Girls at Parties” ao expandir esse pequeno universo e seus relacionamentos compreenda a natureza profunda e carismática da obra e seus mistérios.

 


Ficha Técnica

Título: Como Falar com Garotas em Festas
Autor: Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá
Editora: Companhia das Letras (Quadrinhos na Cia)
Número de páginas: 80
Edição: 2017

 

REVIEW OVERVIEW
Nota
SHARE
Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta, fotógrafo, desenhista e autor na Cine Mundo, além de um cinéfilo fã de Quentin Tarantino, J.J. Abrams, Neil Gaiman, viciado em séries e leitor de quadrinhos/mangás.