Sofia Coppola e a Contemporaneidade

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Sofia Coppola carrega desde sempre dois fardos. O primeiro é ser filha de Francis Ford Coppola e em seguida, de seu pai ter a colocado para atuar em O Poderoso Chefão (que desagradou muita gente). Mas, brincadeiras a parte, Sofia resolveu deixar a frente das telas para atuar atrás delas e é esta sua face que nos interessa aqui.
Difere de seu pai, que adota um cinema “clássico” e “rígido”, gastando milhões de dólares em produções que envolvem helicópteros, explosões e atores caros, Sofia resolveu ser mais simplista.

Seu primeiro longa metragem foi As Virgens Suicidas (1999), baseado na obra de mesmo nome do escritor Jeffrey Eugenides, em que conta a história do mistério que envolve o suicídio de cinco irmãs de uma pequena cidade. Nesse seu primeiro filme, já temos o que se tornaria uma marca da diretora: a crítica aos valores pregados pela alta sociedade. Nesse primeiro, isso surge de forma mais discreta mais para o final do longa mas, nem por isso menos impactante.

No filme, após a primeira irmã tentar suicídio e ser socorrida a tempo, o médico que a atende diz algo do tipo: “Você é muito jovem para fazer esse tipo de coisa, nem conhece como é o mundo”, então a menina responde: “Você diz isso por que nunca foi uma menina de 13 anos”. A primeira vez que assisti a esse filme, reparei que ele parecer trazer também, muito do universo adolescente feminino mas, como nunca fui uma garota de 13 anos, não saberia dizer o quanto isso era verídico para quem tivesse essa experiência. A prova veio quando tive a oportunidade de assistir ao filme no cinema em uma mostra dedicada à diretora e ver as garotas gargalharem nas cenas que emulavam os acontecimentos da puberdade feminina. Como a que uma das irmãs escreve o nome de sua “paixonite” na calcinha. Teve uma garota que estava na fileira atrás da minha que teve uma crise de risos e foi até chamada a atenção pela amiga.

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O seu filme seguinte foi Encontros e Desencontros (2003). Se no primeiro ela foi sutil quanto os costumes da classe alta, neste ela aponta e cutuca a ferida com força. Seu alvo foi o meio que ela mais conhece, a indústria de Hollywood. Na história acompanhamos Charlotte (Scarlett Johansson) e Bob Harris (Bill Murray) que estão perdidos em suas vidas. Ela é recém-casada com um fotógrafo badalado pelos famosos. Mesmo acompanhando seu marido em uma viagem a trabalho em Tokio se sente sozinha e vê de certa distância o mundo que ele participa com muita estranheza. Bob, um famoso ator norte americano, está cansado da fama e se vê em meio a crise da meia idade e com problemas de relacionamento com sua esposa e filhos. Os dois personagens então, se encontram por acaso em um hotel da cidade e se tornam amigos compartilhando as preocupações e problemas de cada um.

Como dito, Sofia “alfineta” pela primeira vez com força o mundo das celebridades. Mas junto, ela também mostra o que é uma espécie sintoma da atualidade em que, as pessoas se sentem perdidas. Coisas como o casamento que antes era sinônimo de certa “estabilidade”, desta vez deixa o sujeito com mais dúvida do que certezas na vida.
Os seus filmes seguintes também seguem a mesma linha. Em Maria Antonieta (2006) ela utiliza a personagem não de forma histórica, mas, para criticar uma sociedade em que as aparências e o dinheiro, valem mais do que amor ou personalidade própria. Para tirar esse viés histórico ela “pega pesado” e coloca até música indie para tocar em um baile vitoriano.

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O seguinte é Em um lugar qualquer (2010) em que novamente temos um ator, Jonny Marco (Stephen Dorff), frustrado com sua vida. Mulheres e carros caros já não o empolgam mais. Aliás, as mulheres acabam se tornando um tormento na sua vida. Ele chega até dormir em momentos como o show de duas stripers loiras gêmeas ou até mesmo ao se aventurar por entre as pernas de uma recém conhecida. A única mulher que parece lhe dar animo é sua filha Cleo (Elle Fanning) que surge como um “bote salva-vidas” na vida do personagem. Ela acaba proporcionado a Jonny momentos que dinheiro nenhum seria capaz de comprar.

Seu filme mais recente é Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013). Nele acompanhamos uma gangue de jovens que invadia a casa de famosos para roubar itens de luxo como bolsas, sapatos e relógios. A história é baseada em fatos reais e o objetivo dos jovens, não era arrecadar dinheiro de fato (visto que todos viviam muito bem) mas sim, ter ao menos um pedacinho do que tem uma celebridade. Dentre as “vítimas” temos Paris Hilton, Megan Fox e Orlando Bloom.
O filme é uma grande crítica à sociedade de consumo e até onde uma pessoa pode chegar, principalmente os jovens, para aparecer ao menos um pouco na grande mídia. Bling Ring também ganhou destaque por trazer Emma Watson em um papel mais, digamos, “sapequinha”. Depois de anos vivendo a certinha Hermione na saga Harry Potter, Sofia resolveu coloca-la para roubar casa de famosos e fazer danças sensuais em boates badaladas de Hollywood. Fica interessante, pois, foge totalmente do que estávamos acostumados a ver a atriz fazer o que dá um destaque maior a personagem.

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Depois de Poderoso Chefão, Sofia se redimiu muito bem em sua atuação como diretora. Todos os filmes merecem ser vistos e revistos. Já os assisti em diversos momentos da minha vida e sempre tenho uma reação diferente sobre eles. Mas, o que me chama mais a atenção, é que seus personagens sempre veem o mundo com estranheza e buscam desesperadamente encontrar seu lugar nele. Muito do que estamos vivendo atualmente. Depois das mudanças do fim do século passado, as múltiplas opções que surgiram e os valores que foram derrubados ao invés de nos tranquilizar nos deixaram mais perdidos e fica mais difícil escolher que caminho seguir. Para mais detalhes, assista ao mundo segundo Sofia Coppola em seus filmes.

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Cinéfilo, apaixonado por vinis e acredita que as pessoas deviam prestar mais atenção nas letras de Radiohead (que não é uma banda depressiva).