Crítica: M8 – Quando a Morte Socorre a Vida

Produzido pela Migdal Filmes, o longa, baseado no livro homônimo de Salomão Polakiewicz, conta a história de Maurício (Juan Paiva). Na primeira aula de anatomia, ele é apresentado a M-8 (Raphael Logam), corpo que servirá para estudo dele e dos amigos durante o primeiro semestre. Impactado por aquele cadáver jovem e negro que, aparentemente, ninguém sabe ou se pergunta como foi parar lá, ele dá início a uma jornada permeada de mistério e realidade, enfrentando suas próprias angústias para desvendar a identidade do rapaz. Além de refletir sobre preconceito e exclusão, o filme toca em questões universais sobre sentimentos e relacionamentos.

Dirigido por Jeferson De, com o roteiro assinado também por ele e em colaboração com Felipe Sholl e Carolina Castro, somos apresentados a uma questão chamada, acesso aos negros as universidades públicas, o que deveria ser daqueles que não podem custear acabam se tornando o espaço daqueles que podem pagar bons cursinhos e tem situações econômicas privilegiadas. Ao adentrar no campus Maurício não se sente pertencido, pois seus colegas de cor branca, com carrões enquanto ele e sua mãe precisam se manter sacrificados para que ele possa estudar. A sua mãe Cida (Mariana Nunes) atua como auxiliar de enfermagem de um ricaço idoso que encara seus últimos dias de vida desfiando em uma luxuosa mansão. É Cida, a mãe o ponto alto do firme por suas falas coerentes e atitudes de força e podendo ser inspiração para muitas mulheres que criaram os seus filhos sozinhas.

M8 fala sobre meritocracia, cotas, abordagem policial, relacionamento inter-racial e todas as dificuldades impostas pela maioria dos jovens negros no Brasil, mas a trama central do filme gira em torno de espiritualidade, inconformismo e o senso de fazer justiça por aqueles que não têm voz. Apesar de levantar tantas questões o filme não tem tempo de trabalhar todas elas, mas colaborar em “plantar uma sementinha” nos espectadores para que possam se informar sobre os temas levantados.

Jeferson De é um diretor que sabe o que está fazendo, este é seu quarto longa, o seu primeiro foi “Bróder” (2010), “O Amuleto” (2015) e “Correndo Atrás” (2019), mas já o seu roteiro por vezes é dúbio beirando ao conformismo em algumas situações, a exemplo a abordagem policial, a vontade de lutar por um possível relacionamento, inclusive o final que apesar de emocionante e representativo. E também expõe fatos que estão enraizados através de atitudes de Suzana (Giulia Gayoso) e (Fabio Beltrão).

O filme conta também com participações pontuais de Zezé Motta, Ailton Graça, Léo Garcia e Lázaro Ramos grandes nomes no cinema brasileiro, além de ter sido vencedor na categoria Melhor Filme de Ficção, por voto popular, do último Festival do Rio.

“M8” clama pela juventude negra se sentir pertencente, exibindo situações de desconforto do protagonista, seja na sala de aula, na porta de um prédio de uma pessoa de poder aquisitivo maior, em uma festa com os colegas de faculdade, essas barreiras precisam ser quebradas e todos devem ter o direito de  transitar em uma sociedade igualitária.

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Andreza Nunes
Nascida em Recife, jornalista por formação e pós graduando em Gestão de Comunicação Digital e Mídias Sociais. Acredito que o cinema é uma arte enriquecedora que pode promover reflexões, mudanças e propiciar a fuga da realidade.