Um pedaço do Cinema: A função das cores

Almodovar 2

         Apesar do brilhantismo clássico das projeções em preto e branco, é difícil separar a arte da cor, cada era cinematográfica tem sua função na construção artística de uma geração, e antes de concebermos o cinema colorido como hoje, conseguir sair dos tons cinzentos foi complicado.

              Os primeiros filmes em cores eram pintados à mão. Isso mesmo! Pessoas iam pintando fotograma por fotograma, um a um até conseguir o resultado de um filme colorizado, porém o trabalho artesanal levava muito tempo, tinha um gasto muito grande e pouco retorno sem contar que o resultado não era satisfatório considerando a limitação tecnológica da época o resultado acabava sendo em demasiado artificial, sendo assim essa prática foi sendo deixada de lado. As tentativas mais bem sucedidas de registrar a cor natural durante a fotografia do filme foram desenvolvidas a partir de 1915 nos Estados Unidos pela empresa Technicolor. O primeiro longa-metragem feito com Technicolor foi “Vaidade e Beleza” de 1932.

Primeiro curta-metragem de animação em Technicolor: “Flores e Árvores” (1932)

La Cucaracha (1932) foi o primeiro curta live-action em Technicolor

              Em 1903 os irmãos Luimère criaram o autocromo, uma espécie de colorido em três películas, nas cores laranja, verde e violeta, essas películas eram posicionadas em sobreposição a uma camada de filme em preto e branco, em sequência acrescentava-se uma camada de verniz impermeável para ser imersa em emulsão pancromática. Assim era possível que as cores fossem captadas em uma única etapa.

                 No final dos anos 30, mais precisamente em 1939 foi produzido o grande clássico “E o Vento Levou” uma grande referência quando se fala em cinema em cores, pois só as grandes produções ousavam usar a nova tecnologia devido à seu grande custo. “O Mágico de OZ” do mesmo ano, brinca um pouco com o advento da cor iniciando sua narrativa em tons de sépia enquanto Dorothy ainda está na sua “vida sem graça” em Kansas, e abusa das cores quando ela chega a OZ, onde seus sapatinhos vermelhos contrastam com a estrada de tijolos amarelos.

                  Entretanto por produzir filmes coloridos ser muito caro, e também da queda econômica e da II Guerra Mundial, os filmes em Technicolor se popularizaram apenas 20 anos depois, somente em meados da década de 50.

                   Alguns cineastas foram relutantes em relação a parar de fazer filmes em preto e branco, defendiam que as cores poderiam distrair o espectador da história contada, no entanto, também por conta da concorrência com a televisão se renderam às cores, e aos poucos as direções foram se apropriando de como elas poderiam contribuir para a construção da narrativa.

As cores no cinema atual

                   Como muitos outros filmes, “Amnésia” do diretor Christopher Nolan, é um bom exemplo do uso do preto e branco e o colorido para ajudar o espectador a absorver com mais facilidade a diferenciação temporal exigida pelo enredo, assim como “Outra História Americana” (1998) de Tony Kaye, que separa passado preto e branco do presente colorido.

                 “O Brilho eterno de uma mente sem lembranças” usa o cabelo colorido de Clementine para ajudar o espectador a se situar na história, onde cada uma das quatro cores utilizadas representa um momento da história do filme, ainda se apropriando a simbologia e sensações que as cores provocam em quem as vê. Veja esse vídeo que explora muito bem essa relação das cores e sua tradução dentro da narrativa:

              Outro exemplo que eu gostaria de deixar como indicação pra quem gostaria de perceber um pouco mais essa questão multifacetada que as cores exercem nas projeções vem do filme “Sr. Ninguém” (2009) de Jaco Van Dormael que conta três histórias paralelas representadas pelas cores azul, vermelha e amarela. A primeira trazendo a noção de algo terno de amizade e um sombrio depressivo, já que o tom oscila dento do azul mais chamativo e depois passa ao azul navy, mais escuro, a cor vermelha é a representante do amor e da raiva, quente, e amarela traz a noção de riqueza, prosperidade, tudo isso pode ser identificado facilmente no decorrer do filme e como essas cores se associam ao que acontece com o protagonista no momento.

Mr._Nobody_girls

Menções Honrosas: “Submarine” e o quente-frio entre o azul e vermelho;

Pedro Almodóvar e seu colorido que merece um post todo só pra ele.

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Estudante de psicologia, cinéfila entusiasta, seriadora e leitora. Dona da página "Curiosos por Filmes" no Facebook. Séries favoritas: Criminal Minds, Chuck, Friends e One Tree Hill. Os filmes favoritos são mais difíceis de escolher...